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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Idolatria de bastidores



Os bandeirões das torcidas organizadas já se acostumaram a dividir a homenagem ao clube de coração com bandeiras menores estampando o rosto de grandes jogadores (e, em menor escala, de torcedores ilustres). Mas agora o Fluminense deu o pontapé inicial à idolatria a quem proporciona o elenco de estrelas que veste a camisa tricolor - Celso Barros, presidente da Unimed.

Afinal, ter nomes de qualidade como Conca, Deco, Fred e Emerson é um raro privilégio no cenário do futebol brasileiro - salários baixos (e muitas vezes pagos com atraso), crises internas e um panorama bem menos atraente financeiramente do que outros países. Com a Unimed, as quantias são exorbitantes e pagas no dia previsto. Além disto, o acordo com a empresa de planos saúde começou no ano de 1999, quando o clube estava na Série C do Campeonato Brasileiro. 11 anos depois, o tricolor se tornava o melhor do país.

Embora tenha grandes serviços prestados, não soa um exagero a homenagem a Celso Barros? Se a moda pegar, daqui a pouco teremos bandeiras dedicadas também a empresários de jogadores - e uma transferência de expectativas que hoje são para dentro de campo para quem está do lado de fora. Imagine se o empresário coloca determinado jogador num clube e, de repente, recebe por ele uma proposta melhor financeiramente (algo corriqueiro no futebol de hoje). Certamente, o empresário também será designado como "mercenário".

Talvez esteja começando uma nova tendência do futebol brasileiro. Em vez de torcer por determinado clube, fique mais cômodo torcer pelas boas atitudes de empresários no mercado da bola. Ônus do profissionalismo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O presente condena



Por décadas, a instituição do Club de Regatas Vasco da Gama teve sua imagem associada a Eurico Miranda - dirigente com ares de ditador e conhecido por artimanhas escusas que beneficiavam o clube. Após muitos anos (dois deles na expectativa da realização de eleições), a oposição conseguiu derrubá-lo do poder, e colocar Roberto Dinamite, maior ídolo da história do Vasco, na presidência.

Com Dinamite, o Vasco foi rebaixado para a Série B em 2008, passou por um ano de reconstrução em 2009, um ano insosso em 2010 e em 2011 começa o ano de maneira negativa. Em seus dois primeiros jogos no Estadual, a equipe perdeu para o Resende, por 1 a 0 em São Januário, e para o Nova Iguaçu, por 3 a 2 no Estádio Raulino de Oliveira. Feitos históricos para os adversários, pois nunca antes nestes confrontos o Vasco tinha saído derrotado. A consequência do mau desempenho em campo apareceu nas arquibancadas e chegou aos muros de São Januário, com ofensas a Felipe e Carlos Alberto (os jogadores de destaque do atual elenco) e o apelo "queremos time".

Mas, em meio a todas as pichações, pairou a pergunta: "Eurico afundou, o que mudou?". O que mudou é que, depois da caravela que naufragava em maremotos de escândalos, sujeitos a tempestades de acusações, a nau da Era Roberto Dinamite parece perdida, à deriva com tanto amadorismo em todas as áreas. Planejamento feito às pressas e aquém da grandeza do Vasco, poucas e precárias contratações, treinadores contratados em caráter emergencial e que chegam para comandar um elenco cheio de carências, um fraquíssimo e desorganizado departamento jurídico e departamento médico de qualidade duvidosa. Muitas coisas que aconteciam também na Era Eurico Miranda, mas que o atual presidente prometeu que deixariam de ter no Vasco da Gama.

Enquanto isto, o Vasco capenga nas primeiras rodadas do Campeonato Carioca e, a menos de uma semana do duelo com o grande rival Flamengo, não sabe se terá forças para ganhar do Boavista no meio de semana. Um panorama distante da "equipe forte que brigaria por títulos" prometida por Roberto Dinamite desde 2008.

A sensação é de que o Vasco andou para trás - em especial pela postura da atual diretoria, que tanto se isenta, culpando a má administração e os erros de Eurico Miranda - e vai regredir enquanto houver esta briga política no clube. Com tanta falta de disposição de seu elenco e com uma sucessão de jogadores limitados passando por São Januário, talvez o torcedor vascaíno tenha mesmo é de olhar para trás, pois assim tornará a encontrar motivos para sorrir.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O estado do esquecimento



A realização de Campeonatos Estaduais permanece como um ritual exclusivo do calendário do futebol brasileiro, mesmo com eles se revelando a cada ano competições deficitárias de público, de renda e de emoção para os torcedores. Só que a intenção de alavancar os clubes e jogadores de cada estado vai se perdendo a cada ano, pois alguns regionalismos são esquecidos pela televisão. Na busca pela audiência do jornalismo esportivo, vale até descartar as equipes locais, para colocar no ar os confrontos de regiões de maior destaque nacional.

É o caso da TV Globo, que em vez de utilizar suas afiliadas para a transmissão de todos os Campeonatos Estaduais, anunciou que exibirá apenas competições de dez estados - Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco, Ceará e Bahia. A pesquisa de torcidas por região foi usada como critério para os torneios considerados mais importantes. O Paulistão será retransmitido para o Centro-Oeste ,e o Campeonato Carioca passará também no Espírito Santo, no Distrito Federal, em boa parte do Nordeste e na região Norte.

Enquanto isto, os demais campeonatos ficam ainda mais abandonados do que os estaduais de mais destaque - afinal, os escolhidos da televisão ao menos recebem cotas para a transmissão das partidas. Por que não usar a TV para tentar ajudar os demais campeonatos?

É bem verdade que há regiões com torcida soberana para cariocas e paulistas. No entanto, esta soberania não poderia ter sido conquistada pela imposição de uma emissora - em especial quando ela se dá ao luxo, por exemplo, de, no ano de 2010, excluir de sua grade um Estadual com uma rivalidade de destaque, como o Campeonato Baiano. Talvez fosse interessante deixar a programação mais maleável, para que houvesse horários disponíveis para exibir tanto as competições que são chamarizes de audiência quanto para dar ênfase às competições locais.

No comodismo da luta pela audiência, a TV Globo reduz o futebol brasileiro a dez estados, enquanto as outras 17 competições confronto com um descaso que não fica restrito aos gramados. A televisão perde profissionais que poderiam ser valorizados no jornalismo esportivo, somente porque as competições foram riscadas do mapa. E os Campeonatos Estaduais caem mesmo no estado do esquecimento.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os novos dribles de Ronaldinho Gaúcho



"Me imagino podendo jogar bem e dar muitos dribles para alegrar a torcida". A expectativa de que, em seu retorno ao Brasil, Ronaldinho Gaúcho tenha trazido na bagagem seu bom futebol não é o único motivo pelo qual seus dribles serão essenciais. Além de seu talento ser suficiente para elevar o Flamengo de 2011 à tradição do clube, o jogador ainda precisará passar por outros desafios com a camisa rubro-negra.

O primeiro deles é driblar sua disparidade em relação a boa parte do elenco rubro-negro. Até o momento, o Flamengo encontrou somente na contratação do meia Thiago Neves um companheiro de qualidade para que R10 seja produtivo ofensivamente. Botinelli ainda é uma incógnita, e jogadores como Renato Abreu e Deivid deixam muito a desejar em relação a Gaúcho.

Outro desafio é se adequar à rotina do calendário brasileiro. Como o Brasil é o único país a disputar campeonatos estaduais, Ronaldinho Gaúcho voltará a conviver com viagens ao interior do estado (que muitas vezes podem ser desgastantes) e, principalmente, a atuar em gramados de qualidade inferior. Infelizmente, nesta lista de gramados de pouca qualidade está incluído o Engenhão - estádio que sediará por três anos os grandes jogos do Rio de Janeiro, e que tem como característica um gramado esburacado.

O desgaste se estende ao Campeonato Brasileiro. A competição passa por um período considerável no qual os jogos acontecem às quartas e aos domingos. Rotina que também acontece na Europa, mas os clubes brasileiros não têm tanta estrutura para que os atletas aguentem esta sequência de jogos.

Mas, em vez das tantas coisas para driblar, a torcida flamenguista certamente vai priorizar que Ronaldinho Gaúcho encare de frente seu maior desafio: a pressão de vestir a camisa 10 do Flamengo em todos os jogos, e conseguir marcar presença principalmente em grandes decisões. Se R10 foi objetivo ao dizer que "o Flamengo é o Flamengo" na coletiva do Hotel Copacabana Palace, firulas não serão suficientes para fazer os rubro-negros reverenciarem seu futebol.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Prováveis ofuscados





Na semana em que o Flamengo sacramentou a bombástica contratação de Ronaldinho Gaúcho e também assinou com o meia Thiago Neves (reforços que deixaram a equipe rubro-negra com mais qualidade para medir forças com o Fluminense no Campeonato Estadual), os outros dois grandes do Rio de Janeiro foram definitivamente jogados à probabilidade de serem ofuscados no Estadual de 2011. Botafogo e Vasco iniciam o ano prometendo usar o dinheiro dos patrocinadores para sanar dívidas financeiras, deixando suas respectivas equipes sem contratações de impacto e apostando no discurso de "manter a base" do ano de 2010.

O desejo de não desmantelar a equipe de um ano para o outro é bastante louvável. Mas, as "bases" de Botafogo e Vasco são suficientes para que ambas as torcidas possam acreditar numa boa temporada?

Com a equipe montada em 2010, o Botafogo foi vencedor dos dois turnos do Campeonato Estadual e ficou em sexto lugar no Campeonato Brasileiro (a quatro pontos do Grêmio, que, por terminar na quarta colocação, foi classificado para a Taça Libertadores da América de 2011). No entanto, a equipe de Joel Santana padeceu - em especial no Brasileirão - da falta de um elenco de melhor qualidade, que fosse capaz de manter a regularidade do time na competição.

O risco de entregar as chances do alvinegro a um bando de jogadores limitados parece bater à porta de General Severiano novamente. As poucas contratações que vieram até agora foram para tentar suprir carências restritas ao time titular. E a que promete ter o maior destaque é a negociação com o meia Everton, que fez um bom Campeonato Brasileiro de 2009 pelo Flamengo e agora está no futebol mexicano.

Contratar jogadores para amenizar carências do ano anterior é a mesma conduta do Vasco. A falta de um jogador de qualidade para formar a dupla de zaga com Dedé e a ausência de um bom finalizador no ataque ficaram em pauta no time vascaíno. De resto, a aposta em uma base que, aos olhos do clube, é convincente para disputar títulos.

Só que o 2010 do Vasco não foi nada convincente. Um Campeonato Estadual desperdiçado por erros de planejamento nas contratações e um Campeonato Brasileiro no qual a equipe se arrastou nas últimas colocações e, quando conseguiu ter fôlego (graças aos reforços de Felipe, Éder Luís e Zé Roberto), esbarrou em erros individuais e na postura defensiva de seu treinador Paulo César Gusmão. Da base que a diretoria considera promissora para disputar títulos, poucos valores merecem destaque. E nenhum deles está na lista de contratados para a temporada de 2011.

O fato de uma equipe se conhecer dentro de campo não parece suficiente para que Botafogo e Vasco façam boas campanhas - afinal, muitos de seus jogadores desconhecem qualidade. A conduta de não deixar a folha salarial onerosa com reforços de altos salários é válida (em especial devido aos problemas financeiros que os clubes têm). Mas consentir que o clube seja ofuscado desta maneira é um erro gravíssimo.

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Para a legenda dos leitores que desconhecem as "caras novas" de Botafogo e Vasco nas fotos do post. Vestindo a camisa do Botafogo, o lateral-esquerda Márcio Azevedo, que veio do Atlético Paranaense. Na companhia do vice-presidente José Hamílton Mandarino, o volante Eduardo Costa, que veio do francês Monaco e o atacante Misael, que no Campeonato Brasileiro de 2010 atuou pelo Ceará.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A simplificação complexa do futebol brasileiro



"Não é justo que grandes jogadores, como o Pelé, não tenham um Brasileiro". A frase do presidente do Santos, Luís Álvaro Ribeiro, foi uma das premissas surgidas no debate para considerar as conquistas da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (ou Taça de Prata) títulos nacionais. A primeira competição durou entre 1959 e 1968, envolvendo campeões estaduais de todo o país. Originalmente, a segunda envolvia apenas clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas, entre 1967 e 1970, começou a agregar equipes de outros estados. Ambos os torneios têm o mérito de serem precursores do Campeonato Brasileiro, que veio a ser disputado a partir de 1971.


Após a solicitação dos campeões destes torneios, a Confederação Brasileira de Futebol está inclinada a considerar estes títulos como campeonatos brasileiros. De acordo com Marcelo Guimarães, presidente do Bahia (campeão da Taça Brasil de 1959), "é apenas uma questão de legitimidade". Esta frase comprova uma tendência lamentável do povo brasileiro, até mesmo em relação ao seu futebol. O fato da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa já terem sido extintos do calendário nacional fez com que as competições fossem relegadas a momentos de glórias que criam teias de aranha na sala de troféus dos respectivos vencedores.

O desprestígio a estes torneios acabou gerando o desejo de reconhecimento dos campeões, e a CBF decidiu usar a equivalência da Taça Brasil e do Torneio Gomes Pedrosa ao atual Campeonato Brasileiro. Só que, em vez de ter um efeito retroativo, a iniciativa da Confederação Brasileira de Futebol pasteurizou a história do futebol nacional. Assemelhar o Brasileirão às demais taças é tirar a relevância que as competições precursoras tiveram para a história da nacionalização da competição.

O Brasil não precisaria de uma unificação se concebesse que, antes do Internacional da década de 1970 e do Flamengo dos anos 80, houve um Santos de Pelé e um Cruzeiro de Tostão com qualidade e visibilidade nacional. E não seria necessário equivaler títulos para a torcida do Bahia confirmar que, antes da conquista do Campeonato Brasileiro de 1988, o clube teve reconhecimento do país afora com o título da Taça Brasil de 1959.

A atitude abre espaço para outras duas polêmicas. A primeira é a eterna rixa da CBF com o Flamengo, sobre o título da Copa União de 1987. Se a entidade agora tornou válidas conquistas que antes renegava, por que a vitória rubro-negra é deixada de lado? A outra questão é sobre a equivalência contraditória. As duas últimas edições da Taça Brasil foram no mesmo ano em que as primeiras competições nacionais do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Na primeira, o Palmeiras foi campeão. Se há apenas um campeão brasileiro por ano, o time palmeirense pode ser considerado bicampeão no mesmo ano (pois venceu a Taça Brasil e o Robertão de 1967)?

Na tentativa de não perder o apoio de Bahia, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Botafogo e Fluminense, a Confederação Brasileira de Futebol promete criar uma confusão sem precedentes para a história do futebol nacional. E pior do que torcidas que esquecem ou desmerecem momentos históricos, é ver uma CBF que decide adequar o passado ao seu presente, como se fosse um favor de sua entidade igualar os campeões do Brasileirão pós-1971 aos campeões de outras décadas.

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Taça Brasil



1959 - Bahia
1960 - Palmeiras
1961 a 1965 - Santos
1966 - Cruzeiro
1967 - Palmeiras
1968 - Botafogo

Torneio Roberto Gomes Pedrosa



1967 - Palmeiras
1968 - Santos
1969 - Palmeiras
1970 - Fluminense

sábado, 11 de dezembro de 2010

Epílogo do amadorismo



O histórico de desorganização do Campeonato Brasileiro parecia relegado a um passado distante desde o início do formato dos pontos corridos. Entretanto, após o fim da edição de 2010, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva deu um exemplo lamentável ao burlar a própria lei, e comprometer até mesmo o título do Fluminense.

Com a possibilidade de um jogador poder trocar de clube durante a competição (desde que tenha feito, no máximo, seis partidas pelo time anterior), foi estipulado que os cartões amarelos levados nos jogos por uma equipe continuariam valendo pelo outro clube. Foi o caso do jogador Leandro Chaves, que, após um cartão amarelo recebido pelo Ipatinga, deveria cumprir suspensão automática depois de dois cartões recebidos pelo Duque de Caxias. Só que o jogador não ficou de fora da partida seguinte, ele só ficou suspenso depois do terceiro cartão pelo time da Baixada Fluminense.

Pela regra, o Duque de Caxias teria de perder três pontos - mas o STJD absolveu a equipe carioca. Ao renegar a própria lei, a Justiça Desportiva considerou como legítima a atitude equivocada do time da Série B do Campeonato Brasileiro, e comprometeu quem tinha agido da maneira combinada anteriormente.

Comprometeu, inclusive, o Fluminense. Da primeira vez que o atacante Tartá foi suspenso por três cartões amarelos, o time do Rio de Janeiro contou com o que ele recebeu por seu antigo clube, o Atlético Paranaense. No novo precedente, Tartá ficaria suspenso apenas após o terceiro cartão amarelo recebido pelo tricolor das Laranjeiras - e não poderia jogar contra o Goiás, no Engenhão. Como punição, o Fluminense teria de perder três pontos desta partida, que fariam com que a equipe fosse ultrapassada pelo Cruzeiro em número de pontos e perdesse o título conquistado.

A infelicidade do STJD só não ficou mais intensa porque o Cruzeiro decidiu não pleitear o título brasileiro no "tapetão". E a Confederação Brasileira não amargou mais uma derrota para a falta de ordem e parece, até o momento, isenta de voltar àqueles tempos em que o futebol era definido de maneira jurídica.

Por toda a campanha feita nas 38 rodadas, o Fluminense é digno de ser o campeão brasileiro no ano de 2010. E retirar a taça de campeão das mãos dos tricolores seria uma derrota também para o futebol nacional, novamente sacrificado pelo amadorismo na hora de organizar o campeonato.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Telhado de vidro



O futebol brasileiro tem em sua história muitos episódios nos quais cartolas foram os centros das atenções em suas competições - coisas que, felizmente, vêm rareando com o passar das décadas e a modernização no calendário brasileiro. Entretanto, estes fatos continuam em debate, mas não por provocações entre torcedores.

A ironia vem de cima, por parte dos cartolas, que agem como integrantes de torcida até mesmo para desmerecerem a conquista alheia. Foi o caso do presidente do Corínthians, Andrés Sanchez. Durante a cerimônia em homenagem aos Craques do Brasileirão 2010, ele parabenizou o campeão brasileiro Fluminense, mas fez uma ironia em seu discurso: "O meu clube também foi rebaixado e sei como é doloroso. Mas é muito bom voltar pela porta da frente, com honra".

Sanchez se referiu à trajetória recente do Corínthians - que em 2007 caiu para a Segunda Divisão, mas voltou à elite do futebol brasileiro ao final do ano seguinte. como campeão da Série B - e colocou como parâmetro a manobra contraditória que deu ao Fluminense o direito de estar na Primeira Divisão no início da década. Durante a segunda metade da década de 1990, o tricolor das Laranjeiras passou por vários momentos nos quais teve apoio do "tapetão" para continuar no grupo dos melhores do país.

Após ser rebaixado em 1996, o clube foi poupado, graças a uma "virada de mesa", e jogou o Campeonato Brasileiro de 1997. Entretanto, o time novamente terminou o ano rebaixado. No ano seguinte, o Fluminense disputou a Série B mas, ao final dela, sofreu um novo rebaixamento. Em 1999, o tricolor disputou a Série C e foi campeão dela. Pela ordem natural das competições, estaria credenciado a disputar a Segundona no outro ano. No entanto, com a realização da Copa João Havelange em lugar do Campeonato Brasileiro de 2000, houve nova manobra, que permitiu a ascensão de alguns clubes das divisões intermediárias ao Módulo Azul (equivalente à Série A) - dentre eles, o Fluminense, "convidado" por ser um dos fundadores do Clube dos 13, que era o organizador da Copa JH.

Sim, de fato uma atitude questionável, que se torna um dos grandes momentos do triunfo da política sobre o futebol. Só que a Copa João Havelange não teve apenas o Fluminense beneficiado - Bahia (rebaixado em 1997), América Mineiro (que caiu em 1998) e Juventude (que terminou na zona de rebaixamento em 1999) também tiveram o direito de disputar a Primeira Divisão.

E, ao final de 2000, outros clubes foram beneficiados na história das competições nacionais. No fim da primeira fase da Copa João Havelange, o Santa Cruz terminou em último lugar e, na penúltima colocação, ficou o Corínthians. Pela ordem natural, ambos cairiam para a Série B no ano seguinte. Se não fosse a ação da Confederação Brasileira de Futebol, que decidiu não só manter os 25 clubes da Copa JH, como também acabou promovendo os dois primeiros do Módulo Amarelo (a Segunda Divisão de 2000), Paraná e São Caetano, e o Botafogo de Ribeirão Preto, que caíra em 1999. Graças à atitude da CBF, o time corintiano não passou pela vergonha de ser rebaixado no ano seguinte a ter sido vencedor do Brasileirão.

As desordens do Campeonato Brasileiro devem sempre ser relembradas por clubes e pela imprensa esportiva, mas para que sejam usadas como exemplos negativos e não voltem a imperar no cenário do futebol nacional. A declaração de Andrés Sanchez não conteve nenhuma mentira, mas, além de ter sido usada como provocação, veio de um Corínthians que tem em sua história um episódio no qual foi beneficiado pelo "tapetão". E, se os historiadores pesquisarem de maneira aprofundada a história do Brasileirão, talvez não sobre nenhum clube de qualquer divisão que seja completamente idôneo diante dos regulamentos de cada uma das edições.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pó-de-arroz, com sal a gosto



Sim, o Fluminense é a equipe que está mais próxima do título de 2010. É verdade, trata-se do clube que há mais tempo está na liderança da competição. Não há dúvidas de que tem um bom elenco, e um treinador conceituado. O time foi capaz de superar até mesmo a sucessão de lesões e de más partidas de suas estrelas. De fato, há 26 anos que o tricolor das Laranjeiras não se sagra vencedor do Campeonato Brasileiro. Mas estes elementos são pretextos suficientes para um aumento exorbitante dos ingressos?

As entradas dos setores do Engenhão (à venda a partir de amanhã) custarão entre R$ 60 e R$ 150. Os preço dos lugares mais baratos - setores Norte e Sul, que são atrás dos gols - tiveram aumento de 100%. Um ingresso da arquibancada superior, que geralmente custa R$ 40, sairá por R$ 80. E para o tricolor que quiser ver a última partida de seu clube de coração no Brasileirão na cadeira especial, em vez de R$ 60, terá de desembolsar a quantia de R$ 150 por entrada (aumento de 150%).

Por mais que se trate de uma partida com ares de final de Campeonato Brasileiro - uma vitória sobre o já rebaixado Guarani leva o Fluminense ao posto de campeão nacional de 2010 - não é justo que haja uma disparidade tão grande de preços. Está certo, o jogo decisivo garante a boa presença de torcedores, só arriscar tamanho aumento, amparado pela certeza de que a torcida não mede esforços financeiros para estar ao lado de seu clube, chega a ser uma atitude sórdida.

Talvez fosse mais interessante para a receita do Fluminense que o preço fosse em conta (ou, no máximo, custasse 10 reais a mais do que os preços convencionais do Engenhão), para tornar mais provável a lotação completa do estádio - coisa que raramente foi vista desde que o time das Laranjeiras passou a mandar seus jogos no Engenho de Dentro. Mas, as filas que já começaram um dia antes da bilheteria abrir comprovam: o tricolor não se importa de digerir um ingresso do pó-de-arroz, com muito sal a gosto. As torcidas cariocas precisarão digerir preços tão salgados para assistirem a decisões envolvendo clubes do Rio? Que esta receita indigesta não se torne comum no cenário carioca.

domingo, 21 de novembro de 2010

Sob discussão



Enquanto a reta final da Primeira Divisão fica às voltas com acusações de "mala branca" para que equipes que não estão na disputa do título do Campeonato Brasileiro atrapalhem a trajetória de quem ainda tem chance de ser campeão, a Série B agora promete ter uma polêmica em sua parte de baixo da tabela. Ao final da partida do Vila Nova com o Náutico, o volante Adílson, que atua no clube goiano, afirmou que havia um "acordo" entre goianos e pernambucanos para que o resultado fosse um empate. Mas ele não se concretizou no campo, pois o Náutico venceu por 4 a 1.

A declaração do jogador do Vila Nova torna ainda mais suspeita a maneira como os atletas goianos lidaram com a desvantagem no placar. Muitos deles mostraram uma postura violenta depois que o Náutico virou a partida. Das cinco expulsões do jogo, três foram do Vila Nova. A primeira, por falta dura de Jorge Henrique. A segunda, num desentendimento de Mimica com o adversário Erick Flores. E a terceira, numa falta grave de David em Jeff Silva. Na confusão, o alvirrubro que sofreu a agressão também foi expulso pelo árbitro catarinense Paulo Godoy Bezerra.

A questão da "mala branca" da elite do futebol nacional ficava apenas na discussão sobre ética e valores morais - pois, no fim das contas, os jogadores recebem mesmo dinheiro para jogar. Mas uma combinação de resultados levanta questões ainda mais graves.

O torcedor vai ao estádio com a expectativa de que, depois de 90 minutos, seu clube de coração saia de campo vitorioso. E a graça do imprevisível do futebol se perde com a manipulação de um resultado. As equipes que brigam diretamente para sair do rebaixamento para a Terceira Divisão (para ficar no contexto de campeonato de Vila Nova e Náutico) têm de ficar na expectativa do apito final do juiz. E não para acompanhar o jogo apenas como praxe, sabendo qual desfecho vai acontecer.

É por acusações como esta que tantas pessoas deixam de acompanhar as partidas de futebol. Talvez seja hora de o Superior Tribunal de Justiça fazer jus ao seu poder e mostrar que pode ser útil em assuntos delicados como este. Ao menos para evitar que um resultado fique sob desconfiança dos torcedores pelos próximos anos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Conversa sem alça



O formato de pontos corridos do Campeonato Brasileiro vem sendo louvado por premiar a equipe que teve mais regularidade depois de 38 rodadas. Entretanto, o formato agora deu margem a uma nova polêmica que sempre se aproxima na reta final de suas edições: a existência de "mala branca".

O termo "mala branca" é usado para designar a atitude de uma equipe que está brigando pelas melhores vagas e, nos bastidores, oferece dinheiro a adversários de seus concorrentes diretos para que tenham mais empenho. Na teoria, a prática não é considerada ilícita, pois os jogadores já são pagos por seus próprios clubes para se empenharem em campo.

No entanto, a "mala branca" é vista como uma atitude antiética, pois os clubes que a utilizam estão aproveitando seu poder aquisitivo para tentar se sobressair aos demais competidores. Os jogadores também ficam cada vez mais rotulados de "mercenário", pois precisam deste tipo de motivação para terem empenho na reta final - o que deveria ser uma obrigação natural do trabalho de um jogador.

A quatro rodadas do fim do Campeonato Brasileiro, seria mais interessante para os 20 clubes que todos se empenhassem da mesma forma, visando não só sua permanência no elenco na próxima temporada, como também momentos de alegria para amenizarem um desempenho insatisfatório na competição.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mais do que uma plataforma



O Brasil sacramentou hoje a eleição de sua primeira presidenta na história. Em meio a tantos desafios que Dilma Rousseff terá pelos próximos quatro anos, a pasta do esporte vai apresentar uma peculiaridade em sua gestão presidencial.



Durante o período do governo de Luís Inácio Lula da Silva, o Brasil conseguiu se tornar o país-sede da Copa do Mundo de 2014, e trouxe para o Rio de Janeiro o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Estas conquistas foram muito valorizadas politicamente pelo governo na época em que ocorreram, e tiveram destaque nos programas eleitorais veiculados em 2010 pelo Partido dos Trabalhadores.

Pois bem. Dilma Rousseff superou José Serra no segundo turno, e certamente tem méritos para chegar à cadeira presidencial. Entretanto, pouco foi falado sobre os Esportes, que devem ser tratados não como uma questão supérflua, e sim como a possibilidade de integração entre as pessoas.

Além do aspecto social, há também questões como melhorar a estrutura de estádios - alguns deles em futuras cidades-sede da Copa do Mundo - e a violência com a qual convivem esportes como o futebol. Em vez de ficar jogando a culpa para confederações ou restringir a questão a um problema de segurança nacional, que tal tomar alguma medida para garantir o conforto de espectadores?

O esporte não pode ser usado apenas como pretexto para obras faraônicas ou para melhorar uma plataforma de governo. Exemplos como o Estádio Olímpico João Havelange (o Engenhão) - magnífica obra feita para os Jogos Pan-Americanos de 2007 do Rio de Janeiro e que padece com a falta de acesso até ele - não merecem ser repetidos. E, em especial, melhorias não precisam acontecer apenas visando a um grande acontecimento internacional que tenha como cenário o Brasil.



O Partido dos Trabalhadores trouxe para o país dois eventos importantes do esporte mundial. Mas tem de aproveitar seus próximos quatro anos para evidenciar que o Brasil não é só uma pátria à espera de supostos avanços, que possam acontecer com a chegada da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Que venham investimentos e melhorias em todas as áreas esportivas. O Brasil não merece continuar a sofrer com lampejos de amadorismo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nada será como antes



A excelente iniciativa de valorizar a Copa Sul-Americana, concedendo uma vaga na Taça Libertadores da América ao campeão do outro torneio entre clubes da América do Sul, degringolou para uma polêmica sem fim. Com a nova determinação da Conmebol, times brasileiros terão de torcer por um insucesso de seu compatriota na Sul-Americana.

A Confederação Brasileira de Futebol conseguiu reverter a ideia original da entidade sul-americana - de que a quarta vaga no Campeonato Brasileiro ficaria de fora, porque o campeão da Taça Libertadores da América de 2010 é brasileiro (o Internacional). No entanto, a volta do G-4 só ficará sacramentada se o Brasil não tiver um vencedor na Copa Sul-Americana.

O time que estiver em quarto lugar no Brasileirão ainda precisará de alguns dias para saber seu planejamento para o ano seguinte - um investimento pesado na formação de elenco para a maior competição sul-americana, ou uma preparação para disputar competições às quais não vale a pena gastar demais, devido ao pouco retorno. É justo que os clubes tenham de ficar à mercê da confusão de regulamentos?

Com o novo panorama criado pela Conmebol, ficar no meio da tabela é bem mais interessante do que disputar uma Taça Libertadores da América e perder. Ficando entre a quinta e a décima-segunda colocação do Campeonato Brasileiro, o time tem três caminhos para conseguir vaga na Libertadores - a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro e a Copa Sul-Americana. A equipe eliminada da maior competição da América do Sul tem seu caminho de volta no ano seguinte restrito ao Brasileirão.

A melhor alternativa seria tirar uma vaga dos clubes mexicanos. As equipes do México disputam a Taça Libertadores da América como convidadas, e mesmo que uma delas seja campeã, não pode disputar o Mundial de Clubes no fim do ano. A diplomacia entre as confederações é mais importante do que dar igualdade a todos os clubes da América do Sul?

A única certeza que fica é de que nada será como antes na organização da Libertadores. E a tática da politicagem continua a ser a grande vencedora nas decisões políticas da Conmebol.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O preço de um centenário



No dia primeiro de setembro de 2010, o Corínthians comemorava não só os 100 anos de fundação do clube. Era motivo de comemoração também a boa trajetória que a equipe tinha no Campeonato Brasileiro - disputando ponto a ponto a liderança com o Fluminense, e com um plantel que mesclava jogadores consagrados com atletas em grande fase - como Roberto Carlos, Jucilei, Elias, Bruno César, Jorge Henrique, Iarley e Ronaldo.

Para a quarta-feira, estava prevista uma partida contra o Vasco, em São Januário. Só que, em vez de passar a festa praticando o futebol que tornou o clube tão popular, o Corínthians decidiu se entregar aos festejos do centenário, com direito show na Avenida Paulista, fogos, bandeiras e tudo o que se pode imaginar. O duelo com o Vasco podia esperar para dia 13 de outubro. Afinal, os corintianos estavam cada vez mais em ascensão, e ainda teriam o benefício de entrar em campo sabendo o resultado que precisariam ter para prosseguir bem na competição.

Pois bem. 42 dias se passaram. Vieram as contusões - algumas delicadíssimas, como a de Jorge Henrique, que tirou o atleta do restante do Campeonato Brasileiro. Os bons resultados foram rareando, e uma derrota vexatória por 4 a 3 para o Atlético Goianiense culminou no pedido de demissão de Adilson Batista. Em vez do time em ascensão, que vencera o Vitória da Bahia por 2 a 1 com um futebol envolvente na décima-sétima rodada, o Vasco teria pela frente em São Januário um Corínthians em pedaços.

Com treinador interino que nem mesmo o presidente corintiano Andres Sanchez lembrava o nome. Com uma crise sem precedentes depois de conseguir somente dois pontos nos últimos 15 disputados. Sem Jorge Henrique, Bruno César, Ronaldo. Sem alma. Sem qualquer disposição para ao menos ameaçar um Vasco que, após abrir 2 a 0 em 21 minutos de jogo, se deu ao luxo de ficar no contra-ataque.

No primeiro semestre, o Corínthians tinha perdido o grande sonho do seu centenário - ganhar a Taça Libertadores da América. Mas, com um trabalho sério à frente da equipe, conseguiu superar a perda através do bom futebol do qual é capaz o seu elenco. Sempre alternou entre o primeiro e o segundo lugar no Campeonato Brasileiro. No entanto, não soube lidar novamente com a má fase - que é comum no decorrer de um campeonato de pontos corridos - e parece jogar fora também a possibilidade de ser o melhor do Brasil pela quinta vez.

Hoje, no dia seguinte à derrota para o Vasco, provavelmente muitos corintianos estejam amargando a ressaca daquela partida adiada em primeiro de setembro. O preço do centenário tem sido cobrado com juros altos para o Corínthians dentro dos gramados do Brasileirão.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O desafio de Neymar



Desde seus primeiros passos como jogador de futebol, Neymar foi tratado como joia, jogador que merece receber todos os cuidados e tratamentos para que não abandone o clube seduzido por alguma proposta que vier do exterior. Para isto, as cifras de seu contrato foram aumentando gradativamente, e vieram vários ajustes para que o atleta não tirasse seus olhos da Vila Belmiro.

Durante toda sua carreira, Neymar conviveu com as mudanças de vida atreladas ao seu bom desempenho no gramado, mas não podia desfrutá-las por completo, pois ainda não completara 18 anos. Agora, em sua maioridade, o atacante dá a sensação de que sente o mundo aos seus pés, e deseja recuperar o tempo perdido por limitações da idade.

No entanto, ele esqueceu que os 18 anos impõem alguns limites, em especial a um jogador de futebol - sujeito a uma rotina intensa de treinamentos, concentrações, e partidas ao menos duas vezes por semana. No caso de Neymar, ainda soma o fato de ser um dos destaques do Santos, equipe tradicional do país.

Sim, Neymar é um craque, jogador abusado, seu futebol enche os olhos. Mas, acima de tudo, deveria ser tratado como um funcionário do Santos, atleta profissional, subordinado ao comando do então treinador, Dorival Júnior. O problema é que, por mais que seja um técnico valorizado, Dorival não entra em campo para fazer as jogadas do atacante. E, depois de o time santista ver seu esquadrão dos "Meninos da Vila" se desmantelar, com as idas de André e Robinho para o exterior, e com a ida do meia Paulo Henrique Ganso para o departamento médico, a diretoria não quer ver escorrer pelos dedos o único sinônimo de grande qualidade no campo que restou.

A solução foi dar prioridade a Neymar, cria da Vila Belmiro, dando a ele o pleno poder de demitir um técnico que cometeu o "deslize" de enxergar que a equipe do Santos tem outros jogadores. Dorival Júnior tem aos montes no futebol brasileiro. Mas um Neymar, não.

Teoria que só revela o amadorismo da diretoria e uma falha nas prioridades do clube da Vila Belmiro. Uma punição a Neymar, e a possibilidade de não escalá-lo no jogo contra o Corínthians numa partida do Campeonato Brasileiro, recebeu a mesma dimensão de um projeto de vitória na Taça Liberadores da América de 2011 aos olhos dos cartolas do Santos.

O preço pago por Neymar foi bem além das cifras. Para dar prioridade a ele, o Santos se submeteu a uma mudança de treinadores em plena disputa de Campeonato Brasileiro. Em vez do trabalho do ano que vem ser uma sequência do que foi em 2010, o time de 2011 será organizado às pressas - afinal, o novo técnico santista chega na reta final da competição e não poderá se dar ao luxo de pedir reforços adequados aos seus padrões táticos antes do fim do Brasileirão deste ano.

Neymar já mostrou que tem força suficiente para derrubar um treinador. E agora se vê diante de um desafio ainda maior: mostrar que seu futebol justifica todas as consequências negativas pelas quais passa o Santos atualmente. Haja maturidade para lidar com tamanha responsabilidade.

sábado, 11 de setembro de 2010

Um Maracanã de desorganização



Passada a primeira rodada de três anos nos quais o futebol carioca vai ficar sem o Maracanã, o Rio de Janeiro finalmente acordou para a realidade de que passou 60 anos sem a cidade ter uma estrutura suficiente para novos gramados. Com o estádio em obras para a Copa do Mundo de 2014, o estado fica com poucas opções para abrigar partidas de suas equipes grandes - o limite mínimo tanto para jogos do Campeonato Estadual quanto para jogos do Campeonato Brasileiro é de 15 mil pessoas.




A alternativa que surgiu como a mais viável é o Engenhão. O Estádio Olímpico João Havelange tem capacidade para 45 mil pessoas, e está cedido pela Prefeitura do Rio de Janeiro ao Botafogo. Desde que passou a ser propriedade botafoguense, o time alvinegro manda também confrontos com Fluminense, Vasco e, recentemente, clássicos com o Flamengo - todos eram realizados no Maracanã.

Entretanto, os jogos de lá apresentaram muitas deficiências. Além da localização do estádio não ser das melhores, as ruas e os arredores são muito estreitos e violentos. Não há metrô perto - apenas há uma linha de trem que é próxima ao estádio - e as linhas de ônibus não alcançam todas as áreas do Rio de Janeiro. Inconveniências que afastam o bom público que é corriqueiro no Maracanã.

Antes do fechamento do Maracanã, o Engenhão estava restrito a mandar jogos do Botafogo, no Brasileiro da Série A, e do Duque de Caxias na Série B. Entretanto, como Flamengo e Fluminense não possuem estádios próprios de grande capacidade, as duas equipes também terão de mandar suas partidas lá. Um inconveniente que poderia dificultar ainda mais o estado precário no qual está seu gramado - afinal, pelo menos quatro vezes por semana aconteceriam partidas no Estádio Olímpico João Havelange.

A saída foi preterir as partidas do Duque de Caxias. Além de não estar na divisão principal do Campeonato Brasileiro, a equipe não leva grande público ao Engenhão. O número muitas vezes não passa dos 30 torcedores. Com tão pouco apelo, o time até poderia mandar seus jogos no próprio estádio - Romário de Souza Faria, o Marrentão, com capacidade para até 7 mil pessoas. Mas o Estatuto do Torcedor não permite esta pequena capacidade em jogos da Segunda Divisão.



A solução mais emergencial foi transferir as partidas do Duque de Caxias para São Januário, pois apenas seu proprietário, o Vasco, realiza jogos lá. Entretanto, a federação esqueceu que o local também é usado para o time vascaíno treinar. O gramado ficará ainda mais desgastado.

E o problema do Engenhão mudaria para a Colina de São Januário. O Fluminense não chegava a um acordo com o Botafogo, e o treinador Muricy Ramalho declarou que, por causa das dimensões do campo, jogar no estádio do Vasco seria melhor. O impasse fica ainda mais intenso porque São Januário e Engenhão, por mais que tenham seus graves problemas de localização, são os únicos locais do Rio de Janeiro disponíveis para partidas de Séries A e B no Campeonato Brasileiro.



A terceira via está a 127 quilômetros da capital fluminense. Em Volta Redonda fica o Estádio Raulino de Oliveira, com capacidade para 20 mil pessoas. O Estádio da Cidadania (outro nome como é conhecido) tem uma excelente estrutura para abrigar jogos de bom apelo público - e durante as obras para os Jogos Pan-Americanos chegou a ser palco de clássicos como o duelo entre Flamengo e Fluminense.

A questão do público não é problema para estas equipes, que têm torcida em todo o Rio de Janeiro e em todo o país. O problema é que a dupla Fla-Flu não só acaba perdendo sua identidade de time da capital, como também faz com que o desgaste seja maior, devido à viagem de cerca de três horas a cada jogo.

O Duque de Caxias foi quem mais sofreu com esta perda de identidade. Nas primeiras partidas pelo Campeonato Brasileiro da Série B, seus jogos foram marcados para o Estádio da Cidadania. Se a equipe não recebe tanto público na capital, a situação fica ainda mais difícil na Cidade do Aço.

O futebol carioca sofre por não ter alternativas mais concretas para compensar a ausência do Maracanã. O Rio de Janeiro comprova, através de seus estádios, que o amadorismo continua crônico no estado. A adaptação dos órfãos do Maracanã promete ser bem difícil.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Agressão ao futebol



Depois da participação frustrante no Campeonato Brasileiro de 2009, o Atlético Mineiro tomou algumas medidas típicas de quem sonha ganhar tudo o que disputar no ano seguinte. Contratou um técnico de vasto currículo - Vanderlei Luxemburgo - e investiu pesado tanto na manutenção de jogadores bem-sucedidos, como Ricardinho e Diego Tardelli, quanto na contratação de atletas considerados de alto nível no futebol brasileiro (casos de Fábio Costa, Réver, Mendez, Daniel Carvalho e, em especial, de Diego Souza).

Mas agora o time atleticano sofre os ônus desta vontade de montar um esquadrão. Após um primeiro turno de Campeonato Brasileiro desastroso, no qual terminou na zona de rebaixamento, a diretoria do Atlético demonstrou que não sabe lidar nem mesmo com uma equipe de grande porte. Em meio ao desespero da situação, o presidente Alexandre Kalil deu a seguinte declaração:

“Acho que os jogadores têm que se cuidar sim. O Atlético não é brinquedo. E se tomarem um cacete na madrugada não vai fazer mal nenhum”.



Primeiramente, um presidente não deve se posicionar de maneira tão incisiva em relação a atletas publicamente. Isto só aumenta a dimensão de uma crise, e torna o clima no clube ainda mais pesado. Em especial quando é cercado de estrelas, pois a disputa de egos fica insustentável ,com a vontade de um deles se sagrar como o herói que livrou o time do pior.



Ao jogar sua raiva para a torcida, Kalil esqueceu-se de que a paixão do torcedor não só faz com que ele tome as dores do que acontece ao seu clube de coração, como também leve ao pé da letra as declarações da diretoria. Com um representante falando em tom agressivo, cogitando até que não faria mal "tomar um cacete", alguns mais exaltados podem chegar às vias de fato, achando que esta será a única solução para que o time se acerte em campo.

Num cenário no qual há tantas campanhas para evitar que a violência continue no futebol, é inadmissível que um presidente de clube acredite que este caminho vá mesmo acertar o Atlético. A experiência de Alexandre Kalil à frente do clube mineiro sabe que até mesmo uma equipe recheada de estrelas também pode não funcionar.

O Atlético Mineiro tem um segundo turno inteiro para melhorar sua campanha. Mas aprendendo com seus erros do primeiro turno. Porque as palavras inconvenientes de Alexandre Kalil não só ferem os jogadores atleticanos. Elas agridem o futebol, mais uma vez jogado a táticas tortuosas de torcedores passionais elevados a dirigentes.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Regalias centenárias



Neste primeiro de setembro de 2010, o Sport Club Corínthians Paulista completa 100 anos de sua fundação. Um centenário que coleciona títulos, grandes momentos do futebol e uma numerosa multidão de torcedores espalhados pelo país. Mas os festejos dos 100 anos trouxeram alguns presentes atípicos no Brasil.

A Confederação Brasileira de Futebol deu folga aos corintianos na rodada do Campeonato Brasileiro, transferindo o jogo de hoje (com o Vasco em São Januário), para o dia 13 de outubro. Uma atitude contraditória. O Corínthians se popularizou por seus feitos no futebol,. Logo, seria emocionante ver a equipe entrando em campo e disputando mais uma partida.

Outro argumento apontou para o fato da partida de hoje não ser realizada em São Paulo, fato que poderia comprometer a segurança do estádio de São Januário. Fatalmente, muitos corintianos iriam ao jogo e, como teriam direito a, no máximo, cerca de 2 mil ingressos, os que ficariam de fora poderiam cometer atos de violência. Dor de cabeça que poderia ter sido resolvida com facilidade, marcando previamente na tabela para primeiro de setembro um confronto no qual o Corínthians fosse mandante.

Mas as regalias não ficaram restritas à rodada do Campeonato Brasileiro. Nesta semana, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou que o estádio que sediará as partidas da cidade de São Paulo na Copa do Mundo de 2014 será o Fielzão (de propriedade do Corínthians). Seria um alívio confirmar de uma vez por todas a presença da capital paulista no maior evento do futebol mundial - ainda mais sendo o palco da abertura da competição.

Só é estranho que tenham escolhido um estádio que ainda está no papel, e que - pasmem! - teve seu projeto aprovado mesmo sem a análise da CBF. A artimanha de Ricardo Teixeira tem algumas faces. O veto ao Morumbi parecia ser uma represália ao São Paulo, pois seu presidente votou contra o candidato de Teixeira na eleição do Clube dos 13. Mas a suspeita agora ganhou indícios bem mais fortes: a opção pela propriedade de um arquirrival são-paulino e, principalmente, o fato do presidente do Corínthians, Andrés Sanchez, ser aliado do manda-chuva da CBF, a ponto de viajar com a delegação de cartolas do Brasil na Copa de 2010.

Salve o Corínthians, sem dúvida um clube grande, altaneiro, como dizem as palavras do hino escrito por Lauro D'Ávila. As glórias de seus 100 anos merecem ser relembradas por todos os seus torcedores, e evidenciadas na história futebolísitca. No entanto, as regalias deste aniversário são caras demais, numa disparidade bem grande em relação aos presentes entregues aos demais clubes. E o pior é que quem paga por isto é o futebol brasileiro.

sábado, 28 de agosto de 2010

Chamas do amadorismo



O Flamengo brincou com fogo ao entregar para Rogério Lourenço o comando do time principal. E, no final (decretado ontem, com a demissão dele), todos se queimaram. Zico, Rogério, jogadores e, principalmente, a instituição do rubro-negro carioca, que mais uma vez viu seu futebol levado por uma sequência de erros, dentro e fora do campo.

Passada a crise do primeiro semestre (que teve como ápice a demissão do técnico Andrade), o Flamengo promoveu Rogério Lourenço a treinador do time principal, alheio ao fato de ele não ter experiência como técnico de jogadores profissionais. Rogério tivera destaque treinando as divisões de base do rubro-negro e, no ano passado, levara a Seleção Brasileira Sub-20 à final do Mundial (perdido nos pênaltis para Gana).

Logo em seu primeiro trabalho como profissional, o técnico ficou encarregado de levar o time, mesmo abalado por uma crise, à conquista da Taça Libertadores da América. Mas a eliminação na competição sul-americana (ocorrida graças a uma derrota para o limitado time do Universidad de Chile em pleno Maracanã) queimou a esperança de o Flamengo voltar ao topo do mundo.

A dupla de ataque Adriano e Vágner Love saiu. Outros jogadores da base campeã brasileira de 2009 também foram embora. Zico chegou para ser diretor de futebol do Flamengo. Para a parte ofensiva, foram contratados os questionados Val Baiano, Cristian Borja e Leandro Amaral. Os resultados no Campeonato Brasileiro, que vinham de forma razoável durante a parada da Copa do Mundo, se tornaram cada vez mais escassos no pós-Copa. Em especial, com relação ao ataque. À exceção da vitória por 3 a 1 sobre o Grêmio Prudente, na terceira rodada, os flamenguistas só balançaram a rede no máximo uma vez a cada 90 minutos.

Com um remendo de time, Rogério Lourenço encontrou dificuldades para relacionar até mesmo 18 jogadores por partida. Provavelmente, isto tenha comprometido também o esquema de jogo da equipe, que invariavelmente ficou dependente de bons momentos de Petkovic - jogador que se tornou insubstituível, mesmo que seus 38 anos não permitam mais um futebol de qualidade durante 90 minutos. Outros atletas, como Kléberson e o repatriado Renato Abreu, se arrastam em campo, mas apesar distos seguem como titulares e demoram para ser substituídos. E quando o treinador altera a equipe, erra em boa parte de suas alterações.



Desde as primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, a torcida se acostumou a queimar o nome de Rogério Lourenço com os gritos de "fora, Rogério". E Zico, a todo custo, persistiu na ideia de mantê-lo no comando do Flamengo. Uma persistência que comprometeu até mesmo seu nome, diante do medo de errar que ele demonstrou ter em relação ao técnico.

Finalmente, acabou vencido pela pressão das arquibancadas, e tirou Rogério Lourenço do cargo. E agora? Zico ainda vai continuar com sua credibilidade inabalada mesmo depois de vir a público e dizer que os torcedores ajudaram a demitir o treinador? Ou seria uma forma de jogar a decisão para a torcida?

De qualquer forma, a queda de Rogério Lourenço apenas confirma que clubes de grande expressão não podem entregar o cargo de técnico a um nome inexperiente. As queimaduras parecem irreversíveis na carreira do ex-treinador. Mas, pelo menos, a diretoria do Flamengo tem chance de se salvar, tanto pelas contratações de expressão dos atacantes Diogo e Deivid quanto pela possibilidade de encontrar um nome mais convincente para treinar a equipe. Claro, com urgência, antes que o incêndio do amadorismo se alastre ainda mais na Gávea.

Sem máscara



Emerson Leão não é mais o treinador do Goiás. A frase em questão nem é tão inédita no futebol brasileiro, pois basta trocar o nome da equipe para lembrar que Leão recentemente coleciona insucessos, polêmicas e brigas em todas as equipes que dirige. Entretanto, agora o técnico saiu única e exclusivamente pelos maus resultados do esmeraldino, que, depois da derrota por 3 a 0 para o Fluminense no Serra Dourada, chegou ao último lugar na classificação do Campeonato Brasileiro.

A rixa política que assola o Goiás não deixou espaço para Leão mostrar suas irritações e controvérsias com dirigentes, e ficou visível aos olhos dos torcedores suas limitações como técnico. Não bastasse a falta de um padrão de jogo para o time goiano, alguns jogadores de pouca qualidade, como Jonílson, Wellington Monteiro e Everton Santos, foram promovidos a titulares absolutos. Em compensação, boas esperanças de gol, como Bernardo e Romerito, foram deixados de lado, e a equipe se tornou ainda mais inofensiva no ataque.

É bem verdade que as limitações do esmeraldino não disponibilizavam um grande time para Emerson Leão montar - consequências de uma política que esvazia cada vez mais o alviverde goiano. Mas os equívocos do treinador comprometeram ainda mais o desempenho do Goiás, relegado a um time no qual apenas há um resquício de vontade entre seus jogadores.



Da passagem de Leão pelo Serra Dourada, ficam apenas duas lembranças. A do lamentável episódio do Barradão, no qual ao fim do jogo contra o Vitória, o técnico se envolveu numa briga e agrediu um radialista de uma emissora, e o fim do mito de que Emerson Leão é um bom treinador mas atrapalhado por cartolas em todos os clubes que treina.

Talvez este seja um raro momento no qual Emerson Leão é coadjuvante numa crise sem precedente que levou um clube à lanterna do Campeonato Brasileiro. Só que, desta vez, o futebol foi apresentado aos erros de Emerson Leão à beira do campo.