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domingo, 11 de julho de 2010

POST ESPECIAL - A arte da conquista



O tempo e o placar... abre novamente espaço para uma postagem internacional. Hoje, é a vez de celebrar a Espanha, que ocupa um lugar que a Seleção Brasileira não conseguiu nesta Copa do Mundo de 2010.

Quem sabe o time de Iniesta, Xavi, David Villa não se torna exemplo para o Brasil nos próximos quatro anos?

Obrigado a todos,

Vinícius Faustini


*****

Análise de jogo: Holanda 0 x 1 Espanha (Soccer City, 15h30 de Brasília)

115 minutos separaram uma seleção caracterizada por sua ofensividade e por um toque de bola que prioriza a construção de jogadas do título de uma Copa do Mundo. Mas, a 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, o gol de Iniesta voltou a consagrar o "futebol-arte" no torneio de futebol mais importante do mundo. A Espanha consegue seu primeiro título na história das Copas, resgatando o talento depois de tantos vencedores que primavam pela força.

A força foi a estratégia na qual a Holanda se baseou para escrever seu primeiro capítulo vitorioso numa Copa - após a habilidade da "Laranja Mecânica" ser superada por Alemanha Ocidental e Argentina nas finais de 1974 e de 1978, respectivamente. Mesmo com o técnico Bert van Marwijk escalando três atacantes - Kuyt, Van Persie e Robben - o esquema holandês se preocupava em impedir o toque de bola espanhol a qualquer custo (mesmo que precisasse recorrer a entradas mais ríspidas).

A Espanha começou se lançando ao ataque, e perdeu três oportunidades em apenas 11 minutos. A primeira aos quatro, num cruzamento de Xavi para a área desviado de cabeça por Sergio Ramos, que Stekelenburg espalmou com dificuldade. Aos 10, novamente de Sergio Ramos veio boa chance espanhola. Ele passou por Kuyt e chutou, mas o zagueiro Heitinga impediu o gol. No minuto seguinte, David Villa levou parte da torcida de Johanesburgo a comemorar quando, depois de seu chute, a bola balançou a rede. Mas tinha balançado apenas por fora.

Só que logo os espanhóis começaram a dançar conforme a música ditada pela Holanda, e passaram a cometer também muitas faltas. O panorama do primeiro tempo apresentou mais momentos de pancadaria, com a conivência do árbitro inglês Howard Webb, que, embora parasse bastante o jogo com a marcação de faltas, muitas vezes jogadas ríspidas foram advertidas apenas verbalmente. O ápice do juiz foi punir somente com cartão amarelo o volante De Jong, por colocar as travas de sua chuteira no peito de Xabi Alonso.

A Holanda só foi chegar com perigo ao gol de Casillas num lance inusitado. Ao dar a posse de bola novamente para os espanhóis (seguindo a conduta do "Fair Play" em devolvê-la para o time adversário que estava no ataque antes de precisar parar a jogada para atender um atleta contundido), Heitinga mandou um chutaço que o camisa 1 espanhol jogou para escanteio aos 34. Dois minutos depois, uma furada de Mathijnsen dentro da área impediu o gol holandês, e Casillas fez permanecer o empate sem gols ao defender chute rasteiro de Robben aos 45.

Logo no início do segundo tempo, foi a vez da Espanha deixar de marcar por uma furada de Capdevilla diante do gol. A pressão espanhola continuou constante (em especial depois da entrada de Navas em lugar do apagado Pedro), mas, aos poucos, a Holanda começou a engatar bons contra-ataques. Aos 18 minutos, em sua primeira boa jogada, o camisa 10 Sneidjer fez lançamento rasteiro para Robben. O atacante holandês superou dois zagueiros, mas, diante de Casillas, chutou mal e permitiu que o goleiro adversário defendesse com o pé.

Entretanto, o time holandês se ressentia da melhor atuação de seu trio de ataque. Sneidjer começara a aparecer com perigo entre os zagueiros espanhóis, mas Robben preferia cavar faltas em vez de se manter de pé para buscar jogadas, e Van Persie era uma nulidade na frente. Por isto, mesmo aos trancos e barrancos, a equipe espanhola chegou mais vezes ao gol de Stekelenburg, principalmente nos pés de David Villa.

Bert van Marwijk promoveu a substituição de Kuyt por Elia para melhorar o poderio ofensivo da Holanda. Só que nem esta mudança foi capaz de fazer os holandeses saírem vencedores. Aos 38, novamente cara a cara com Casillas, Robben tentou driblá-lo e acabou desarmado pelo goleiro. O jogador ainda pediu pênalti, mas ganhou apenas um cartão amarelo por reclamação. Holanda e Espanha se preparavam psicologicamente para mais 30 minutos de luta pelo título - tanto que Vicente Del Bosque tirou Xabi Alonso para colocar Fábregas a cinco minutos do fim do tempo regulamentar.

Foi através de Fábregas que veio a primeira grande oportunidade da prorrogação. O meia espanhol recebeu bola de Iniesta e chutou, obrigando Stekelenburg a fazer uma boa defesa. O goleiro Casillas deu uma boa chance para os holandeses em seguida, quando saiu mal do gol e deixou Mathijsen livre. Mas, com o gol vazio, o zagueiro cabeceou a bola para fora. E foi só para a Holanda. Mesmo depois de entrar em campo mais um atacante - Van der Vaart no lugar de De Jong - a equipe não conseguiu mais nenhuma oportunidade clara de marcar, e o treinador ainda foi obrigado a queimar uma alteração porque o veterano Van Bronckhorst, de 36 anos, estava visivelmente cansado. Em seu lugar, entrou Braafheid. Para deixar a situação mais complicada, Heitinga levou seu segundo cartão amarelo na noite, e acabou expulso por falta em Iniesta.

Só que o gol não saía. Em especial, porque a Espanha sentia a ausência de um centroavante nato desde o início da Copa do Mundo. Afinal, o único jogador da posição, Fernando Torres, atuou na competição sem qualquer ritmo de jogo (e na final, após substituir David Villa, sentiu uma fisgada na perna quando tentou dar um pique em direção ao gol). A solução era apostar em boas jogadas de Iniesta. E a categoria dele se sobressaiu na batalha do Soccer City. Após uma boa troca de passes com Navas, Fábregas o lançou na esquerda. Livre na área, Iniesta chutou cruzado, sem defesa para Stekelenburg, aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação. A Holanda ainda tentou alguma jogada, mas os defensores espanhóis comprovaram porque sua seleção tomou apenas dois gols na competição.

Os 115 minutos de espera até o grito de gol espanhol deixaram em êxtase uma multidão de torcedores que ansiou durante 28 anos pelo surgimento de uma seleção com estilo de jogo semelhante ao Brasil de 1982 (considerado último esquadrão símbolo do "futebol-arte"). O título da Espanha é um grande passo para a confirmação de que o futebol bem jogado pode, sim, ser campeão. E a talentosa Fúria de 2010, que conseguiu superar até mesmo o tabu de um campeão de Copa nunca ter perdido seu jogo de estreia, deixa para trás o estigma de não ter poder de decisão suficiente para ganhar uma Copa do Mundo.

sábado, 3 de julho de 2010

Eterna mea culpa


Ao assumir o cargo de treinador da Seleção Brasileira, Dunga recebeu de Ricardo Teixeira a incumbência de fazer uma seleção sem todo o "oba-oba" que aconteceu na edição de 2006 (quando o estrelismo de alguns jogadores levou à derrocada do Brasil nas quartas-de-final, diante da França). Durante quatro anos de trabalho, o técnico seguiu este padrão. Repetiu a doutrina de "comprometimento" dos jogadores e implantou nas suas convocações a ideia de ter uma "coerência". O Brasil não ganhou a Copa do Mundo de 2010. Foi eliminado nas... quartas-de-final.

A razão do novo insucesso no torneio de futebol mais importante do mundo deixa claro: Copa não é lugar para revanchismo. Nos quatro anos da Era Dunga como treinador, a única intenção era jogar na cara da imprensa esportiva e da torcida que a CBF poderia, sim, cuidar da sua Seleção Brasileira de maneira organizada. Entretanto, a recomendação se tornou uma obsessão para Dunga, e gerou outro grave inconveniente.

Jogadores que despontavam com excelentes atuações (em especial nos campeonatos estaduais Brasil afora) acabaram execrados pelo técnico. Apenas jogadores medianos, que tinham raros lampejos de habilidade e seguiam o esquema por não terem qualquer personalidade futebolística receberam prioridade. O argumento era de que craques acabavam tropeçando em seus egos nos momentos decisivos, e não agregavam nada ao grupo. A exceção a este panorama, do ponto de vista de Dunga, foram o meia Kaká e o atacante Robinho, que aparentemente apresentaram mais humildade que nomes como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano em 2006.

Pois bem, sob desconfiança geral e irrestrita, a Seleção Brasileira partiu rumo à África do Sul. Conseguiu duas vitórias e um empate na fase classificatória, uma classificação tranquila nas oitavas-de-final, até que a partida contra a Holanda apresentou o óbvio: o Brasil de Dunga tem outros erros.

Sem as "estrelas", o poder ofensivo ficou extremamente reduzido, e as opções do banco de reservas rarearam, a ponto de nem Dunga ousar fazer alguma substituição quando a Seleção Brasileira perdia para a Holanda e não encontrava meios de mudar sua apatia. Ônus de uma equipe que foi criada somente com o intuito de ser a oposição do Brasil de quatro anos atrás.

Dunga anunciou que não prosseguirá no cargo. Que o presidente Ricardo Teixeira não recorra a treinadores movidos a extremismos, e se preocupe em escalar jogadores com habilidade e poder de decisão suficientes para vestir a camisa da seleção mais tradicional do mundo. A Seleção Brasileira não pode ficar sujeita a conviver com uma mea culpa diferente a cada quatro anos de Copa do Mundo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Incapacidade de desequilibrar



Análise de jogo: Holanda 2 x 1 Brasil (Porto Elizabeth, 11h de Brasília)

A Copa do Mundo de 2010 acabou para o Brasil aos sete minutos do segundo tempo da partida contra a Holanda. O gol de empate dos holandeses ganhou uma dimensão maior do que aquele momento da partida merecia. Em poucos instantes, a maquiagem de um grupo que representava a tradicional Seleção Brasileira se desfez, para revelar a verdadeira faceta da equipe de Dunga. Uma seleção que só mantém sua tranquilidade quando está na frente do placar e se desestabiliza quando este roteiro se modifica.

O gol anulado de Robinho (após jogada em que Daniel Alves estava impedido) revelou que a partida de Porto Elizabeth poderia ser resolvida nos erros defensivos do time holandês. E foi graças a eles que a Seleção Brasileira conseguiu ser decisiva aos 10 minutos. O volante Felipe Melo, um dos mais criticados da convocação de Dunga, deu passe primoroso em direção a Robinho. O camisa 11 emendou de primeira, longe do alcance de Stekelenburg. Brasil 1 a 0.

Não bastasse a desvantagem no placar, a Holanda sentia as deficiências de sua saída de bola. A demora da passagem entre a defesa e o meio-de-campo deixava seus melhores jogadores marcados facilmente. Nem mesmo Robben conseguia se desvencilhar da marcação de Michel Bastos - outro jogador duramente criticado durante a Copa do Mundo, mas que vinha atuando bem na primeira etapa deste jogo.

Bem armada para jogar no contra-ataque, a Seleção Brasileira encontrou outras oportunidades de chegar ao seu segundo gol ainda nos 45 minutos iniciais. Após cobrança de escanteio, Daniel Alves conseguiu jogar a bola na área. Juan, na marca do pênalti, chutou por cima. Em chute por cobertura, Kaká obrigou Stekelenburg a espalmar para escanteio. No último lance do primeiro tempo, após arrancada Maicon chutou cruzado e a bola balançou a parte de fora da rede.

Jogador que se destacou na primeira etapa, Felipe Melo começou a degringolar sua atuação e rascunhou o retrato que viria do Brasil para o restante da partida. Em jogada na intermediária da defesa brasileira, o camisa 5 deu passe para trás de calcanhar que quase armou a primeira chegada de perigo do adversário, antes do minuto inicial.

Aos sete minutos, o Brasil admitiu o complexo de ser uma seleção bem aquém do esperado para fazer uma Copa do Mundo vencedora. O setor defensivo brasileiro, única unanimidade desta equipe, apontou uma série de equívocos em um lance só. Tudo começou quando permitiu que a cobrança de falta para a Holanda acontecesse rapidamente. Em seguida, Sneidjer desceu pela esquerda, passou por dois defensores e cruzou na área. Júlio César saiu, mas a bola desviou na cabeça de Felipe Melo e parou na rede. Era o empate holandês.

A defesa tinha furado de maneira grosseira, e o goleiro aclamado como melhor do mundo tinha saído atabalhoado num lance que parecia fácil para ele. Ainda faltavam cerca de 40 minutos para tentar ficar em vantagem novamente. A pressão parece ter pesado em todos os jogadores brasileiros. O erro contínuo da Holanda no primeiro tempo começou a acontecer na saída de jogo do time do Brasil, e as coisas ficavam ainda piores porque, a cada tentativa, era explícito que Kaká não estava em sua melhor condição física. A dupla Robinho e Luís Fabiano parecia mera espectadora, e não encontrava capacidade de entrar novamente no jogo.

A incapacidade da Seleção Brasileira em partir para o ataque despertou o futebol dos (poucos) bons atletas holandeses. E, no momento em que Robben começou a levar a melhor no duelo com Michel Bastos, o Brasil definitivamente sentiu o problema de Dunga não ter feito um selecionado que tivesse um elenco melhor. O camisa 6 levara cartão amarelo no primeiro tempo, e parecia na iminência de tomar o segundo. O treinador teve a atitude certa, ao sacá-lo da partida. Entretanto, o seu reserva, Gilberto, além de atuar há muitos anos no meio-de-campo, tem 35 anos.

Após roubada de bola no meio-de-campo, Robben deixou Gilberto para trás e só não conseguiu cruzar rasteiro para a área por causa do desvio de Juan. Na cobrança de escanteio, Kuyt desviou de cabeça para a primeira trave. Em meio a seis brasileiros, o baixinho Sneidjer chegou livre para cabecear a bola no fundo da rede de Júlio César. A Holanda virava para 2 a 1, aos 22 minutos.

A Seleção Brasileira definitivamente entregava-se a uma apatia digna de suas limitações. E o símbolo da Era Dunga como técnico se tornou o meia Felipe Melo. A aclamada força defensiva com raro lampejo de habilidade se esvaiu na raiva por estar atrás do placar. A única saída, no ponto de vista do jogador, era se impor pela violência. Além de parar a jogada com falta, o volante deu um pisão em Robben e foi expulso, aos 28 minutos do segundo tempo.

Restou ao técnico Dunga colocar Nilmar em campo. Só que a substituição apenas serviu para trocar um atacante pelo outro. Luís Fabiano, de fato, não era uma peça útil para o Brasil naquele momento. Entretanto, a velocidade do camisa 21 não teria qualquer função sem a companhia de mais um jogador próximo a ele.

Os últimos minutos apresentaram o desespero de um Brasil que só conseguia chances através de escanteios. Por duas vezes, a bola passou perto do gol de Stekelenburg, sem que nenhum jogador aparecesse para conclusão. A falta de estabilidade emocional foi tanta que era bem provável que, em caso do empate e uma prorrogação de 30 minutos, a Seleção Brasileira não conseguisse remediar o seu descontrole.

O Brasil cai em Porto Elizabeth, vítima da insistência burra de seu treinador em priorizar um grupo que, no máximo, é eficaz em seu desempenho em campo. O time que Dunga levou à África do Sul era louvado por seu equilíbrio. Mas sua incapacidade em desequilibrar uma partida custou a eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010.

A Holanda chega às semifinais, motivada por ter sido a primeira seleção a vencer um jogo de virada no "mata-mata" desta Copa. As cinco vitórias no torneio mostram que o time de Bert van Marwijk sabe de suas limitações, e por isto valoriza tanto o toque de bola, até achar nos pés de seus craques a oportunidade de um bom futebol. Ao contrário da Seleção Brasileira, os holandeses são capazes de transformar em acertos os erros de seu próprio desequilíbrio.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mística brasileira



A crítica esportiva vem sendo quase unânime no coro de que a Seleção Brasileira que está neste momento na África do Sul se assemelha com o time da Copa do Mundo de 1994. E quis a tabela da Copa da África que um adversário passasse pelo trajeto brasileiro na mesma fase do mundial dos Estados Unidos.

Nas quartas-de-final daquela competição, o Brasil entrou em campo para enfrentar a Holanda. No entanto, teria pela frente mais um fantasma tão grande quanto a ausência de títulos já durar 24 anos. O início do "jejum" brasileiro acontecera graças ao "Carrossel Holandês" - time capitaneado pelo craque Johan Cruyff, que fascinou o mundo porque o esquema do técnico Rinus Michels colocava todos os jogadores para atacarem e defenderem com a mesma intensidade.



A Copa de 1974 trazia regulamento diferente da atual. As oito seleções classificadas da primeira fase se dividiam em dois grupos com quatro equipes, com o primeiro de cada grupo indo à final e o segundo brigando pelo consolo de vencer a decisão do terceiro lugar. A Seleção Brasileira tinha se desfigurado em relação ao time campeão de 1970. E o irresistível futebol da Laranja Mecânica derrubou o sonho brasileiro com uma vitória por 2 a 0, gols de Neeskens e do craque Johan Cruyff. Na disputa de terceiro lugar, o Brasil foi derrotado novamente, para a Polônia, por 1 a 0 (gol de Lato).



1994 teve um panorama diferente. Após uma primeira etapa sem gols, a Seleção Brasileira abriu 2 a 0 em 17 minutos do segundo tempo - com a dupla de ataque Romário e Bebeto. Entretanto, dois minutos depois a Holanda diminuiu com o craque Berkgramp e, aos 31, veio o empate holandês, com Winter. Aos 36 minutos do segundo tempo, veio gol de desempate do Brasil. Numa cobrança de falta, Branco acertou uma bomba da intermediária que tocar na trave antes de entrar na rede de De Goej. Estava sacramentado o 3 a 2 e a ida brasileira para as semifinais (feito que não acontecia desde 1978).

16 anos depois, Brasil e Holanda voltarão a se enfrentar, num novo continente, com novos jogadores, e com uma história para reescrever de cada lado. Do lado holandês, a "herança" do talento da Laranja Mecânica de 1974 (que se estendeu à edição de 1978) se une à ansiedade e à responsabilidade de não deixar repetir a frustração do "Carrossel Holandês" ter enguiçado quando mais precisava - em ambas as edições, os esquadrões da Holanda perderam em final de Copa do Mundo.

A Seleção Brasileira tem mais um indício da comparação com a Copa de 1994 para se inspirar neste ano. O time de Dunga pode ser idêntico ao que ganhou o tetracampeonato dos Estados Unidos e não ter a "magia brasileira" (como insinuou o craque holandês Johan Cruyff recentemente). Mas nunca se deve duvidar da mística do Brasil.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A importância deste 3 a 0



Dunga conseguiu. A Seleção Brasileira desta edição da Copa do Mundo tem, de fato, muito mais garra e comprometimento do que o Brasil da Copa da Alemanha, em 2006. Esta certeza ficou ainda mais evidente depois das oitavas-de-final. Os placares foram semelhantes. Mas a disposição em campo, quanta diferença.

O Brasil treinado por Carlos Alberto Parreira trazia uma equipe bem mais badalada que a de hoje, com remanescentes do time vencedor de 2002 como Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo e estrelas em ascensão, casos de Adriano, Robinho e Fred. O "quadrado mágico" formado pelos meias Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e Adriano era a maior promessa do futebol mundial naquele momento.

Mesmo com a equipe demorando a engrenar na fase classificatória - somente na terceira partida veio a convincente vitória por 4 a 1 sobre o Japão, após más apresentações nos triunfos sobre Croácia (1 a 0) e Austrália (2 a 0) - o futebol brasileiro ainda era favoritíssimo. E foi assim que entrou em campo nas oitavas contra Gana.



No FIFA WM-Stadion Dortmund, os brasileiros enfrentaram uma estreante em Copas e que era a grata surpresa africana. Entretanto, desde o início os ganeses sentiram o peso de uma eliminatória em Copa do Mundo e não ofereceram qualquer resistência. O gol de Ronaldo aos cinco minutos anunciava uma goleada. Mas o restante do primeiro tempo mostrou uma equipe burocrática, que só chegou ao segundo gol nos acréscimos, através de Adriano. A segunda etapa se revelou um espetáculo modorrento, e Zé Roberto construiu o 3 a 0 apenas aos 39 minutos. Na partida seguinte, a Seleção Brasileira foi eliminada, em nova atuação modorrenta, na derrota por 1 a 0 para a França.

O 3 a 0 diante do Chile em 2010 mostrou uma equipe bem organizada - por mais que seu futebol tenha como forte o contra-ataque - na qual não se vê qualquer ponta de estrelismo. Até porque, seu jogador mais famoso (Kaká) age com a mesma humildade a cada jogo. A imagem dele, no banco de reservas aplaudindo efusivamente Michel Bastos quando o chute dele foi para fora, comprovou a união que a equipe traz na África do Sul.

De fato, a atual Seleção Brasileira não teve nenhum duelo contra seleções ofensivas que têm muito talento no ataque. Mas a postura que o técnico Dunga implantou no Brasil deu muito mais credibilidade à ideia de que os jogadores brasileiros vão buscar a taça na raça duranta a edição da África do Sul.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Lucidez verde e amarela



Análise de jogo: Brasil 3 x 0 Chile (Ellis Park, 15h30 de Brasília)

Após três partidas com suas atuações cercadas de ressalvas por todos os lados, a Seleção Brasileira guardou para as oitavas-de-final uma apresentação impecável na Copa do Mundo de 2010. No gramado do Estádio Ellis Park, o Brasil aliou sua serenidade a um futebol com mais velocidade tanto no toque de bola quanto na criação de jogadas, e envolveu o Chile ao ponto de fazer uma partida difícil terminar com o elástico placar de 3 a 0.

O jogo começou de maneira previsível. Como sempre, o Chile foi escalado por Marcelo Bielsa de maneira ofensiva, apostando nas jogadas em que o meia Beausejour se aproximava do trio de ataque formado por Suazo, Sánchez e Mark Gonzalez. Entretanto, o fôlego chileno se esvaiu rapidamente, provavelmente pelas frustrações diante da zaga adversária. Ao contrário das hesitações nas partidas anteriores, o setor defensivo brasileiro não dava margem para falhas - inclusive nos pés de Michel Bastos, que na fase classificatória invariavelmente era um destaque negativo - capitaneada por mais uma grande atuação de Lúcio.

Os insucessos do ataque deixavam o Chile ainda mais exposto, graças ao novo panorama do meio-de-campo brasileiro. Com a entrada de Ramires no lugar de Felipe Melo, o Brasil ganhou em habilidade, e a saída de bola ficou bem mais rápida. A Seleção Brasileira também apresentou uma qualidade a mais: os chutes de fora da área. Cada vez que clareava uma oportunidade, vinham chutes ao gol de Bravo, como os de Ramires e - pasmem! - de Gilberto Silva.

Mas o gol não saía, e os erros de passes mostravam que o Brasil estava, aos poucos, se deixando dominar pelo nervosismo (ainda mais quando Lúcio foi derrubado dentro da área e o juiz Howard Webb mandou o jogo seguir). Nesta hora, Maicon ficou encarregado de novamente encaminhar as coisas para a Seleção Brasileira. Da primeira vez, numa tentativa de cruzamento da linha de fundo que terminou num escanteio. Outrora motivo de irritação da torcida brasileira - em outros jogos, Elano e Daniel Alves tinham o hábito de fazer cobrança rasteira - o escanteio encontrou o caminho do gol. Do pé direito de Maicon, saiu um cruzamento para a área chilena. Juan subiu mais que os defensores e, de cabeça, conseguiu colocar a bola no fundo da rede de Bravo. 1 a 0 Brasil, aos 34 minutos.

A busca pelo empate acabou deixando o Chile com o mesmo perfil de seu treinador - o argentino Bielsa tem o apelido de "El Loco". Na loucura para voltar a ter chances de passar às quartas-de-final, a equipe atacou em massa, mas seu desatino foi fatal. Robinho puxou contra-ataque e desceu livre pela esquerda. Da intermediária, passou para Kaká no meio, que aproveitou erro da marcação chilena e encontrou Luís Fabiano na área. O camisa 9 foi em direção ao gol, driblou Bravo e chutou no fundo da rede. 37 minutos, e o Brasil terminaria o primeiro tempo com a vantagem de 2 a 0.

Para a segunda etapa, Marcelo Bielsa tentou deixar o Chile ainda mais ofensivo. O treinador trocou o apático Mark González por Valdivia (jogador que, além de habilidoso, sabe catimbar nas partidas) e, em mais uma de suas típicas loucuras táticas, substituiu o zagueiro Contreras pelo meia Rodrigo Tello.

Entretanto, a história do primeiro tempo se repetiu, e a ofensividade foi embora logo nos primeiros minutos. O Chile foi novamente traído por sua afobação e, aos 14 minutos, Ramires recuperou bola no meio-de-campo e foi em direção à área. Após driblar dois marcadores, o jogador passou para Robinho, que chutou à esquerda de Bravo. Brasil 3 a 0.

Ramires parecia confirmar de vez sua vaga de titular, se não fosse a falta violenta que fez no meio-de-campo. O árbitro Howard Webb deu cartão amarelo, o segundo do jogador na Copa do Mundo, e ele está suspenso no próximo jogo. O desfalque de Ramires parece ter sido uma lição para Dunga. Com a classificação bem encaminhada, dois jogadores que estavam "pendurados" foram substituídos - Luís Fabiano saiu para a entrada de Nilmar e, para evitar que Kaká novamente fosse expulso na Copa por um segundo cartão amarelo durante uma partida, o treinador colocou Kléberson no jogo. No finzinho, Robinho foi trocado por Gilberto. Com a entrada dos dois últimos jogadores, a maldade da torcida brasileira foi desmentida e, sim, Kléberson e Gilberto não foram a passeio para a África do Sul.

Embora o Chile tenha atuado em boa parte do segundo tempo com quatro atacantes - além de Sánchez, Suazo e Valdivia, Millar também entrou em campo, no lugar do lateral Isla - a chance da equipe se resumiu a um chute de Suazo defendido por Júlio César, aos 29 minutos. Os chilenos saem da Copa levando a certeza de que a ofensividade não pode ser confundida com desorganização no ataque.

O Brasil segue na Copa, e na sexta-feira, dia 2 de julho, enfrenta a Holanda (que eliminou a Eslováquia hoje, com uma vitória por 2 a 1) na Cidade do Cabo. A Seleção Brasileira sai de Johannesburgo com a certeza de que sua lucidez foi um fator importantíssimo para se defender do Chile armado por "El Loco" Bielsa. Mas os brasileiros têm consciência de que só isto não basta para conseguir um triunfo sobre o ótimo time holandês.

domingo, 27 de junho de 2010

Falsa valentia



Com os ânimos mais calmos após os ataques contra jornalistas, o técnico Dunga apresenta um defeito que contradiz com a "coerência" que ele tanto gosta de declarar. O treinador, que se define como um homem valente e disposto a dar a cara a tapa, não age da mesma forma na escalação de sua Seleção Brasileira.

Três rodadas depois do torneio, a questionada lista de 23 convocados para a Copa do Mundo de 2010 parece que vem sendo colocada em dúvida pelo próprio Dunga. A fase classificatória terminou e, sim, agora há tempo de alterar os titulares visando o período de "mata-mata".



A primeira estranheza vem na lateral-esquerda. Para o setor, Dunga convocou Michel Bastos, do Lyon, e Gilberto, do Cruzeiro, independente de ambos atualmente atuarem no meio-de-campo das equipes que defendem. Diante de Coreia do Norte, da Costa do Marfim e de Portugal, Bastos mostrou-se uma nulidade, tanto matando oportunidades no ataque quanto por deixar espaços nos momentos em que o Brasil é atacado. Não falta mais nada para ele ser sacado do time.

O inconveniente é que Gilberto tem 35 anos, e, embora tenha bastante experiência, não tem o mesmo fôlego para jogar na posição como teve em seus tempos de Flamengo, Cruzeiro, Vasco e Seleção Brasileira, por exemplo. Ao convocá-lo, Dunga sabia que a idade poderia jogar contra. Mas, como a convocação se confirmou, não era hora de bancá-la? Ou a opção vai ser mesmo improvisar Daniel Alves, como aconteceu na Copa das Confederações de 2009 quando André Santos e Kléber não corresponderam?



O técnico também bancou o meia Kléberson na Seleção Brasileira, indiferente ao fato de ele amargar a reserva no Flamengo. Ele é reserva imediato de Felipe Melo, jogador que vem primando por sua falta de estabilidade emocional e por sua chuteira estar restrita à canela dos jogadores.

Na partida contra o Portugal, o camisa 5 saiu de campo com dores no tornozelo (pretexto convincente para tirá-lo antes do fim do primeiro tempo por causa do cartão amarelo). Em seu lugar, entrou Josué, jogador tão inoperante na realização de jogadas quanto Gilberto Silva. Kléberson, volante mais habilidoso, continuou no banco de reservas, deixando ainda mais forte que sua convocação foi movida pelo sentimento de culpa, em compensação ao fato de a queda de rendimento do jogador ter acontecido principalmente porque se contundiu pela Seleção Brasileira num amistoso contra a Estônia.

Talvez seja a hora de Dunga se dar ao direito de ser "covarde" em algumas situações. Afinal, o Brasil enfrenta amanhã o Chile em Johannesburgo e precisa encontrar motivos para ter mais coragem de vencer as partidas da Copa do Mundo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mesma língua



Análise de jogo: Portugal 0 x 0 Brasil (Durban, 11h de Brasília)

Apesar da verdadeira Torre de Babel, na qual brasileiros e portugueses demonstraram se desentender com o bom futebol, ao final da partida os dois países falaram a mesma língua quanto ao resultado. O esperado duelo entre as seleções mais fortes do Grupo G não saiu de um empate em 0 a 0, placar que foi sinônimo de classificação para Brasil e Portugal rumo às oitavas-de-final.

A escalação do técnico Dunga trouxe uma surpresa a mais para a torcida brasileira. Além das entradas de Daniel Alves e Júlio Baptista (respectivamente nos lugares do contundido Elano e do supenso Kaká), Robinho foi poupado para a entrada de Nilmar. Do lado português, o treinador Carlos Queiroz trouxe uma escalação surpreendentemente defensiva, com as entradas dos meias Pepe, Danny e Duda, barrando os meio-campistas Pedro Mendes e Simão Sabrosa, além do atacante Hugo Almeida. Estava explícito que Portugal iria se retrair e deixar as jogadas de ataque somente a cargo de Cristiano Ronaldo.

E Portugal conseguiu se defender bem. Com nove jogadores na defesa (mais o goleiro Eduardo), a equipe se concentrou na retranca, e foi beneficiada pela precariedade do meio-de-campo brasileiro. Encarregado de ser o substituto do habilidoso Kaká, Júlio Baptista engessou as oportunidades de ataque do Brasil. Sua tendência era sempre tentar algum lance pelo meio. Mas, sem talento suficiente para driblar, suas tentativas eram inúteis, e Nilmar e Luís Fabiano continuavam sem chances perto da área.

Aos poucos, a Seleção Brasileira ia ficando com sua defesa exposta, mas por motivos diferentes. Enquanto na direita o problema era a subida constante de Maicon no apoio, a esquerda era uma nulidade, devido a mais uma fraca atuação de Michel Bastos. Mas o esquema da seleção portuguesa não levava muito perigo, pois Raul Meirelles e Duda ficavam distantes de Cristiano Ronaldo.

A ausência de futebol doeu ainda mais aos olhos dos espectadores de Durban no finzinho da primeira etapa. O jogo se resumiu a faltas duras de ambos os lados, em especial através das travas das chuteiras de Felipe Melo. O árbitro Benito Archundia fez vista grossa quando o pé do brasileiro acertou o braço de Pepe. O português respondeu mais tarde com um pisão e mostrou ao adversário com os dedos que a briga deles estava em "1 a 1". O pretexto da dor no tornozelo foi providencial para Dunga substituir o camisa 5 por seu reserva imediato, Josué, aos 43 minutos do primeiro tempo.

O lampejo de bom futebol veio de Nilmar que, após um passe de Luís Fabiano, chutou livre na área. Eduardo defendeu e a bola bateu no travessão antes de sair. A rigor, foi a única conclusão na qual o goleiro português teve algum trabalho nos primeiros 45 minutos. Houve uma cabeçada de Luís Fabiano que raspou a trave ainda no último minuto. Pouco. Do jogo que pedia muitos gols, sobrava para a torcida a frustração de um primeiro tempo com muitos cartões amarelos - além de Felipe Melo, o brasileiro Juan e os portugueses Duda, Tiago, Pepe e Fábio Coentrão foram advertidos na etapa inicial.

A impressão do início de seu segundo tempo era que Portugal manteria o esquema de jogar no erro do ataque brasileiro. Só que os erros eram tantos que a partir dos 10 minutos o técnico Carlos Queiroz começou a fazer substituições ofensivas em sua equipe. Duda saiu para a entrada do "avançado" Simão Sabrosa, e Cristiano Ronaldo não ficou mais solitário entre os zagueiros do Brasil. Mas, mesmo assim, o atacante conseguiu se destacar apenas numa belíssima jogada individual, na qual passou por quatro jogadores no lado esquerdo e parou no desarme de Lúcio. No rebote, Júlio César dividiu com Raul Meirelles e a bola foi para escanteio. Por pouco, o camisa 1 brasileiro não acabou fora de campo, porque na dividida o pé do jogador português acertou suas costas (local onde ele usa uma proteção à coluna).

Se a lateral-esquerda era motivo de impaciência com o mau desempenho de Michel Bastos, as coisas complicaram na lateral-direita, em consequência do risco que é improvisar jogadores. No primeiro tempo Maicon subia muito para o ataque, mas na etapa final sua atuação ficou restrita à defesa. Daniel Alves assumiu a função de lateral-direita que atacava, fazendo com que a Seleção Brasileira perdesse um jogador no apoio e deixasse ainda mais perdido na criação o meia Júlio Baptista. O Brasil se resumia a chutões para o gol sem qualquer direção.

Após alguns lampejos que assustaram a zaga brasileira, aos poucos Portugal foi restringindo-se à marcação - em especial com as entradas dos limitados Pedro Mendes e Miguel Veloso em lugar, respectivamente, de Pepe e Raul Meirelles. E o esquema defensivo dos lusitanos era tão forte que muitas vezes os ataques da Seleção Brasileira começavam em jogadas do zagueiro Lúcio.

Quando Dunga decidiu mexer no time brasileiro faltavam 10 minutos para o final. E mexeu errado. No lugar do decepcionante Júlio Baptista, entrou Ramires. É bem verdade que se trata de um jogador mais veloz. Mas ele é um volante, e um volante a mais não faria diferença em uma equipe que pretendia ganhar o jogo. Aos 40, Luís Fabiano foi substituído por Grafite. Àquela altura, o reserva só teve tempo para dizer que entrou em campo num jogo de Copa do Mundo.

O Brasil guardou para os acréscimos sua última boa chance em Durban. Ramires chutou e a bola desviou em Bruno Alves, mas Eduardo se recuperou a tempo de espalmar para escanteio. Na partida em que categoria e futebol não falaram a mesma língua, o Grupo G terminou com a classificação de duas seleções que falam a Língua Portuguesa. O Brasil, primeiro colocado com sete pontos, vai a Johannesburgo na segunda-feira, enfrentar o Chile. Portugal, com cinco pontos que garantiram a segunda vaga, jogará terça-feira na Cidade do Cabo contra a poderosa seleção da Espanha. A passagem de brasileiros e portugueses para as oitavas-de-final aumentou a possibilidade de no dia 11 de julho o mundo ouvir o grito de "é campeão" na Copa do Mundo de 2010.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O fantasma de uma goleada



Não, não se trata da goleada portuguesa por 7 a 0 diante da Coreia do Norte. A verdadeira goleada que pode assombrar o confronto entre Brasil e Portugal vem do Estádio Bezerrão, em Gama, no Distrito Federal. A vitória da Seleção Brasileira sobre os portugueses por 6 a 2 no amistoso de 2008 ainda ecoa na cabeça de ambas as seleções às vésperas do duelo.

Sete titulares do time brasileiro estão hoje no time titular de Dunga - Júlio César, Maicon, Gilberto Silva, Elano, Kaká, Robinho e Luís Fabiano - e o reserva imediato que vai substituir Elano nesta partida (Daniel Alves) também atuou no jogo de Brasília, na posição de lateral-direita. Naquele embate entre Kaká e Cristiano Ronaldo, Luís Fabiano se tornou o protagonista, ao marcar três gols. Maicon, Elano e Adriano fizeram os gols brasileiros. Danny e Simão marcaram para os lusitanos. O fato de Maicon e Luís Fabiano estarem em campo completam os bons motivos para a torcida canarinho ficar confiante num bom resultado do jogo de Durban.

Entretanto, de 2008 para cá o técnico Carlos Queiroz alterou as peças que vestem a camisa de Portugal. Somente o zagueiro Bruno Alves, o meia Tiago, o meia-atacante Simão Sabrosa e o atacante Cristiano Ronaldo foram escalados como titulares do jogo contra os norte-coreanos. A dúvida em relação aos portugueses fica ainda mais forte pelos dois resultados oscilantes que a seleção teve na Copa do Mundo - antes dos 7 a 0, um empate sem gols com a Costa do Marfim.

Por mais que tenha sido numa partida amistosa realizada praticamente no fim da temporada, a goleada brasileira servirá como motivação para os portugueses. Um espírito de revanche pode contribuir muito para a busca por uma vitória - em especial se for para provocar o adversário dizendo que "perdeu quando podia perder". Principalmente porque a lembrança de uma Copa do Mundo é bem saborosa para Portugal (a vitória por 3 a 1 em 1966, num show de Eusébio sobre um Brasil que tinha Pelé e Jairzinho).

O fantasma dos 6 a 2 de Brasília certamente vai pairar na África do Sul. Cabe à Seleção Brasileira comprovar o comprometimento gritado aos quatro ventos por Dunga, e tentar garantir o primeiro lugar no Grupo G, diante de um rival que tem muitas armas. Uma apresentação vexatória a poucos dias do primeiro jogo do "mata-mata" seria de assombrar qualquer torcedor brasileiro.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Novo poder da criação



Hoje foi confirmado que, além de Kaká (suspenso pela expulsão), o meia Elano não entrará em campo contra Portugal, por causa da pancada que levou do jogador da Costa do Marfim no domingo. Com mais uma vaga aberta no meio-de-campo, a obsessão de comentaristas por uma Seleção Brasileira mais ofensiva - inclusive a deste que vos escreve - pode aparecer na última partida da fase classificatória. O técnico Dunga treinou o time com Daniel Alves e Júlio Baptista no lugar dos dois titulares iniciais da equipe.

O camisa 13 do Brasil prossegue em sua peregrinação por uma vaga, e promete repetir a trajetória de outros laterais que atuaram com a camisa amarela - casos do atual auxiliar-técnico Jorginho, que saiu da lateral-esquerda para atuar na direita, e Mazinho, que além das duas laterais em muitas partidas, atuou no meio-de-campo durante a Copa do Mundo de 1994. Daniel Alves acatou a recomendação de Dunga, que diz para seus comandados fazerem tudo pelo selecionado do país. Algo que passou bem longe do time de Carlos Alberto Parreira na Copa de 2006.

Baptista tem o desafio de desmentir o estigma de jogador trombador em 90 minutos. Substituir o camisa 10 da Seleção Brasileira pode elevar um atleta a homem de confiança e presença certa até em convocações pós-Copa, ou afundar sua carreira com a camisa amarela. E, assim como Daniel Alves, o meia-atacante da Roma sabe que não pode almejar a vaga num ataque que tem Luís Fabiano e Robinho como titulares e Nilmar como reserva imediato.

Os portugueses serão a prova de fogo para o novo poder da criação do Brasil. E a única maneira destes reservas tentarem ser mais do que opções imediatas será atuar com a serenidade e a objetividade de um veterano com a camisa da Seleção Brasileira.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Quem é que vai no lugar dele?





A expulsão de Kaká se tornou um desafio para a Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo. Não que um resultado negativo vá trazer grandes estragos, afinal, os brasileiros estão classificados para as oitavas-de-final. O jogo contra Portugal é um teste para o meio-de-campo do Brasil.

Os comandados de Dunga têm o importante desafio de conseguir sua autoafirmação. A imprensa foi unânime ao dizer que Kaká foi o único meia com criatividade e habilidade entre nomes como Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué e Júlio Baptista. Desde a convocação, o meio-de-campo é o setor mais questionado, por sua característica mais defensiva, que prioriza a força e a marcação.

A rigor, o jogador que mais tem qualidades ofensivas na reserva do meio-de-campo do Brasil é Júlio Baptista. Muitas vezes, ele chegou a jogar perto do ataque, e fez gols importantes nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Entretanto, Dunga tem na manga outras alternativas para recorrer.

Uma delas é o curinga Daniel Alves. Com Maicon se firmando na lateral-direita, sua chance de ser titular aparece apenas se Michel Bastos não agradar na lateral-esquerda ou numa oportunidade no meio-de-campo. Mas, como Daniel não atuou bem contra Coreia do Norte e Costa do Marfim, é provável que esta chance seja descartada.

Teoricamente, a opção mais ofensiva seria a entrada de Nilmar no ataque, recuando Robinho. Mas é uma alternativa bem mais arriscada. Um jogador que atua mais perto da área pode não render tanto como quarto homem do meio-de-campo. Sua tendência a ir para frente pode deixar o setor exposto, e depender da qualidade do passe dos demais jogadores poderia complicar a criação do setor. Sem contar que o camisa 11 da Seleção Brasileira ainda não teve boas atuações na Copa do Mundo.

A qualidade do meio-de-campo do Brasil contra Portugal só será confirmada durante os 90 minutos - independente do substituto de Kaká. A torcida brasileira não sabe quem é que vai no lugar dele, do "camisa 10 da Seleção" de 2010. Sabe apenas que não deseja um "rosto feio" para Seleção Brasileira no último jogo da fase classificatória.

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Dê o PLAY e ouça Camisa 10, música escrita e interpretada por Luiz Américo para a Copa de 1974. Às vésperas da competição, Pelé anunciou que não jogaria mais a Copa. A situação inspirou o compositor, num tema que parece ser bem atual.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Más palavras




As polêmicas envolvendo o técnico Dunga não foram encerradas no dia da convocação da Seleção Brasileira. Na entrevista coletiva após a vitória por 3 a 1 sobre a Costa do Marfim, o treinador xingou o jornalista Alex Escobar, da TV Globo, enquanto declarava que alguns órgãos de imprensa teriam criticado a insistência em escalar o atacante Luís Fabiano.

A atitude intempestiva de Dunga reduziu uma partida em que o Brasil se classificou para as oitavas-de-final a um pretexto para o técnico soltar rajadas de respostas atravessadas contra jornalistas (em especial os brasileiros). Desde a coletiva pós-convocação, ele e o auxiliar-técnico Jorginho passaram a vociferar em tom de doutrina a ideia de que críticas à Seleção Brasileira que está na Copa de 2010 são feitas por quem não quer a conquista na África do Sul.

E o que é pior: os palavrões direcionados a Alex Escobar foram típicos de pessoas que não aceitam conversa e só se garantem quando chegam às vias de fato. Dunga quis posar de valente mas só revelou desequilíbrio e insegurança.

Algumas pessoas ficaram a favor de Dunga, dizendo que foi uma defesa natural para um treinador que carrega a pressão de comandar uma Seleção Brasileira. Esta ideia indica então que a inexperiência dele fez a diferença negativamente? Quem assume o cargo de técnico do Brasil sabe que vai sofrer pressões de todos os lados. Trata-se da torcida de um país inteiro. Se não há como se acostumar, por que não dirigiu um time, independente de qualquer tradição que ele tivesse?

Dunga respondeu aos críticos da sua "Era Dunga" no banco de reservas com títulos, casos da Copa América e da Copa das Confederações. Por que não restringir a resposta a seus críticos com as atuações da Seleção Brasileira? Foi assim que técnicos como Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari responderam em 1994 e em 2002, respectivamente.

Alguns levantaram a questão de que a TV Globo "criou caso" à toa. Ora, o natural de qualquer empresa é que um empregado dela tenha direito a defesa quando atacado em seu período de trabalho. Alex Escobar teria sido imprudente caso tivesse respondido com palavrões aos palavrões que foram desferidos contra ele. Nem em seu blogue pessoal o jornalista quis criar polêmica.

A polêmica era suficiente pelo ódio com o qual tratam a TV Globo. Até o ex-goleiro Ronaldo (hoje comentarista da Rede TV!), através do seu Twitter @Ronaldo601, resolveu dar seu pitaco. Ele afirmou que a Vênus Platinada estaria brava porque "mandou 500 profissionais para cobrir a Copa e Dunga não dá nenhuma regalia".

Nenhuma emissora está isenta de cometer erros, mas daí a justificar ofensas como retaliação às críticas que sofre de determinado jornalista ou de determinado órgão de imprensa é demais. De fato, Dunga é muito criticado (às vezes injustamente). Mas em nenhum momento apareceu uma linha se referindo ao técnico da Seleção Brasileira com qualquer palavrão.

A imprensa não pode servir como "chapa branca" da Seleção Brasileira. Jornalistas estão aí para questionar e debater pontos de vista do treinador e dos jogadores que fazem parte do time do Brasil. Técnicos do Brasil estão acostumados a questões ou mitos levantados contra eles a cada Copa do Mundo. E alguns deles não precisaram de palavrões para voltarem ao país com conquistas.

domingo, 20 de junho de 2010

Apesar dos pesares



Análise de jogo: Brasil 3 x 1 Costa do Marfim (Soccer City, Johanesburgo, 15h30 de Brasília)

Em seu segundo jogo na Copa do Mundo, a Seleção Brasileira conseguiu ter uma atuação bem melhor do que na estreia, diante da Coreia do Norte. Mesmo assim, pode-se dizer que o Brasil saiu do campo do Soccer City com uma vitória que veio "apesar dos pesares". Pouco poder ofensivo, violência dos jogadores da Costa do Marfim e má arbitragem passaram por Johanesburgo e quase tiraram os três pontos dos brasileiros.

À exceção de um chute de Robinho de fora da área (no qual ele foi "fominha" em vez de passar para Luís Fabiano, que descia livre pela esquerda), o Brasil dos primeiros minutos parecia mera repetição do jogo de estreia. Os jogadores demonstravam apatia, lentidão na saída para o ataque e alguns, como os cabeças-de-área Gilberto Silva e Felipe Melo, retardavam as jogadas ao tocar para trás. A falta de criatividade era tanta que em alguns momentos o zagueiro Lúcio se arriscava como ponta-direita.

Só que o roteiro prometia um final diferente da partida contra a Coreia do Norte. Em vez de ficar somente na defesa, aos poucos a Costa do Marfim foi se aproximando da área adversária, apostando no trio ofensivo Dindane, Drogba e Kalou. Mas os marfinenses esbarravam nos próprios erros de pontaria, e suas finalizações não chegavam perto do gol de Júlio César. O gol veio, mas em verde e amarelo. Em jogada iniciada por Robinho, o meia Kaká e o atacante Luís Fabiano fizeram uma tabela, e o camisa 9 chutou com violência, sem chance para Boubacar Barry. Brasil 1 a 0, aos 24.

A vantagem do placar pareceu não animar tanto o time de Dunga. A Seleção Brasileira continuou fechada na defesa, aceitando a marcação da Costa do Marfim. Erros primários passavam nos pés dos jogadores e obrigavam o Brasil a continuar na defesa. Mas o setor defensivo se portou bem, porque o medo do empate veio somente numa bomba de Yaya Touré salva por Júlio César. De qualquer forma, o apito anunciando o fim do primeiro tempo chegou com alívio para a torcida brasileira.

Com apenas seis minutos do segundo tempo, Luís Fabiano escreveu o segundo gol brasileiro por linhas tortas. Na dividida com um marfinense, a bola resvalou na mão do atacante. Em seguida, ele deu dois chapéus (um deles passou por cima de dois adversários), ajeitou com o braço e chutou à esquerda de Boubacar Barry. A situação inusitada que aconteceu depois do gol confirmado traria consequências para a Seleção Brasileira no restante da partida: o árbitro Stephane Lanoy perguntou ao atacante se ele tinha tocado com a mão durante o lance, e Luís Fabiano disse "não".

Aos 17 minutos, Kaká pela segunda vez mostrou que está se recuperando. O camisa 10 desceu na esquerda e cruzou rasteiro para o meio da área. Elano desviou para o fundo da rede, fazendo 3 a 0. A vitória parecia tranquila, mas duas condutas começaram a desestabilizar a Seleção Brasileira. A atitude dos jogadores da Costa do Marfim, que distribuíram pontapés a torto e a direito. A impressão era de que, como o jogo estava perdido, os africanos queriam pelo menos prejudicar os brasileiros de alguma forma. Foram sucessivas botinadas até a primeira "baixa" no Brasil. A entrada de Tioté tirou Elano da partida aos 30 minutos, e por pouco Keita não tirou Michel Bastos de campo com um chute violento.

O francês Stephane Lanoy, que mostrou estar disperso no segundo gol de Luís Fabiano, comprovou sua incapacidade de apitar uma partida de Copa do Mundo diante da agressividade dos marfinenses. Eles abusavam das faltas e das provocações, e não saía nenhuma punição. Somente Yaya Touré levou um cartão amarelo - mas porque o brasileiro Kaká foi punido da mesma forma no lance.

Assim como aconteceu na partida de estreia, a zaga brasileira teve um lapso em sua marcação no fim do jogo. Gervinho cruzou para a área, e os jogadores brasileiros pararam pedindo impedimento de Drogba. O atacante cabeceou sem chance para Júlio César, aos 33 minutos. Com a vantagem de 3 a 1, o Brasil tentou segurar as ações. Mas Kaká não soube manter sua serenidade. Ele deu um empurrão em Keita e levou seu segundo cartão amarelo. O jogador acabou sendo expulso aos 39 minutos.

Foram alguns minutos de pressão desnecessária, mas apesar dela, o Brasil venceu a Costa do Marfim por 3 a 1. Não dá dúvidas de que a Seleção Brasileira atuou de maneira mais convincente neste domingo no Soccer City. Mas todos devem ter consciência de que ainda falta ajustar algumas coisas para que a caminhada seja com menos sustos.

A zaga bateu cabeça em alguns momentos. Michel Bastos ainda não se firmou na lateral-esquerda. Omeio-de-campo não pode demorar tanto para conseguir suas primeiras jogadas. E, principalmente, o técnico Dunga precisa ter pulso firme para fazer suas alterações quando os jogadores demonstrarem que não estão em condições (físicas ou psicológicas) para continuar na partida - o cartão vermelho de Kaká podia ter sido evitado.

Com seis pontos ganhos, a Seleção Brasileira está classificada para as oitavas-de-final. O jogo contra Portugal, dia 25, será apenas para confirmar se termina em primeiro ou segundo lugar no Grupo G. Mas é hora do Brasil pensar em corrigir todos os "pesares" que passaram pelo jogo contra a Costa do Marfim. Afinal, nenhum brasileiro quer sair da África do Sul com o pesar de uma eliminação.

sábado, 19 de junho de 2010

Contra a mesmice



Com Gilberto Silva recuperado da contusão, a Seleção Brasileira vai a campo contra a Costa do Marfim com o mesmo time da estreia. Será que há esperança de uma atuação amanhã melhor do que no dia da partida com a Coreia do Norte?

Felipe Melo e Gilberto Silva poderiam não se resumir a apenas marcar. De vez em quando, um passe para a frente pode render uma boa jogada. A invisibilidade de Elano não aconteceria se ele atuasse mais perto de Kaká, em vez de insistir em ficar somente compondo o meio-de-campo junto com os dois volantes. Ainda mais porque os marfinenses tendem a jogar recuado e a valorizar sua força física contra a Seleção Brasileira.

Os dribles de Robinho não podem ficar isolados no ataque, enquanto o restante dos jogadores fica parado, à espera do que vai acontecer. Isto só contribuiu para que eles aceitem a marcação da zaga adversária. Se Kaká e Luís Fabiano não estão em sua melhor forma, as opções ofensivas devem aparecer de outros jogadores. Não apenas esperar que Daniel Alves e Ramires entrem bem nas partidas.

Os 90 minutos de amanhã serão cruciais para o Brasil. Não por lutar pelos três pontos. Mas para a Seleção Brasileira sair de campo vitoriosa no confronto com a mesmice à qual o time de Dunga parece estar entregue.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

À beira do desperdício



A dois dias da partida contra a Costa do Marfim, o Brasil tem a chance de perder seu primeiro titular por causa de contusão. Gilberto Silva torceu o tornozelo durante o treino, e seu substituto imediato deve ser mesmo Josué, jogador que consegue receber tantas críticas quanto Felipe Melo quando atua pela Seleção Brasileira.

Mais uma vez, Dunga jogará pela janela a chance de fazer um meio-de-campo pelo menos com um pouco mais de velocidade e certa habilidade, ao colocar Ramires. Ter um jogador com qualidade para criação de jogadas pode fazer a diferença, em especial no caso de Kaká continuar sendo atrapalhado por sua falta de ritmo de jogo.

O técnico brasileiro cogita a possibilidade de, no caso de má atuação do camisa 10, Robinho ser recuado para Nilmar jogar ao lado de Luís Fabiano. Finalmente, parece que ele entendeu que a convocação de muitos volantes tem seus ônus. Um país com tantos jogadores habilidosos não merecia estar sujeito a improvisações.

No jogo com a Costa do Marfim, quando o Brasil precisa vencer por uma boa diferença para conseguir o primeiro lugar do Grupo G, Dunga promete fazer a mera troca de um volante por outro (Gilberto Silva por Josué). E diante de um adversário que anunciou explicitamente que também vai jogar recuado, novamente os brasileiros atuarão de maneira defensiva. As funções defensivas parecem ser as únicas nas quais ele não admite mudanças com improvisos.

A iminente entrada de Josué coloca o Brasil à beira de mais um desperdício. De um desperdício de talento. A torcida espera que o medo de se precipitar numa partida não leve a Seleção Brasileira a ficar num abismo ainda maior entre sua defesa e seu poder de atacar.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

POST ESPECIAL - Estigma interminável



Sim, O tempo e o placar ainda é um blogue destinado a falar do futebol brasileiro. Mas, excepcionalmente, hoje a análise de jogo é de uma partida que não envolve a Seleção Brasileira diretamente.

No entanto, este que vos escreve acredita que o que aconteceu no jogo entre Espanha e Suíça é uma lição que deve ser sempre repetida no Brasil. Que favoritismo não ganha jogo, a torcida já sabe desde a Copa de 1950. Muitos escretes canarinhos também ficaram pelo caminho em outras edições nas quais eram apontados como favoritos absolutos - 1982, 1986 e 2006 são algumas delas.

Nesta Copa, o Brasil não faz jus a seu favoritismo. Mas, caso venham bons resultados, o título de favorito pode vir. Por isto, é bom todos ficarem atentos sobre o jogo de Dublin. Inclusive a seleção de Dunga.


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Análise de jogo: Espanha 0 x 1 Suíça (Moises Mabhida, 11h, horário de Brasília)

A Copa do Mundo encerra sua rodada inaugural com a confirmação de que ela tem sua própria lógica. E a falta de lógica do futebol, que é capaz de fazer da desacreditada Suíça vencedora do confronto com uma Espanha favoritíssima ao título, ganha contornos ainda mais dramáticos. A "sensação" da Copa foi derrubada em sua partida de estreia, e o timaço espanhol corre o risco de ser mais uma "Fúria" sem poder de decisão no momento de maior responsabilidade.

A Espanha entrou em campo em Durban para fazer um jogo que se resumiria a uma palavra: ataque. Do outro lado, vinha a seleção tradicionalmente conhecida pelo esquema do "ferrolho" (no qual os jogadores desempenham meramente funções defensivas), e que na Copa do Mundo de 2006 ficou marcada por um dado curioso: foi eliminada nas quartas-de-final, sem levar nenhum gol no tempo normal. E na primeira etapa, a Suíça restringiu seu campo de ação ao setor defensivo.

O meio-de-campo espanhol tocava a bola aliando dribles à precisão de passes, obrigando o time suíço a se defender como podia. Os primeiros minutos pareciam um cartão de visitas do talento de Busquets, Xabi Alonso, Xavi e Iniesta. Mas os dois Davids - David Silva e David Villa - permaneciam isolados no ataque, e as chances não chegavam ao gol de Benaglio. A falta de oportunidades do ataque foi tanta que somente aos 23 minutos veio a primeira defesa do goleiro suíço. E em chute do zagueiro Piqué.

Os espanhóis permaneciam incansáveis no ataque, mas os chutes a gol vinham sempre de fora da área - o mais próximo em chute de David Villa, que, na hora da conclusão, optou em tentar por cobertura, mas a bola foi muito alta. O time de Vicente del Bosque passava os primeiros 45 minutos de sua Copa do Mundo em branco. Mas com a certeza de que não empalideceu em nenhum momento no Estádio Moises Mabhida. E teria a segunda chance de comprovar sua Fúria logo depois do intervalo.

Mas em fúria ficaram seus torcedores aos seis minutos do segundo tempo. Por um instante, os papéis se inverteram no palco sul-africano. Diante de tantas lições de habilidade na primeira etapa, a Suíça encontrou um lampejo de bom toque de bola na partida. Benaglio cobrou tiro de meta, a bola desviou num jogador do meio-de-campo e chegou à arrancada de Derdiyok. Gelson Fernandes entrou na área e, aproveitando que Piqué e Puyol não prestaram atenção nos ensinamentos da zaga adversária, chutou prensado na saída do gol de Casillas.

A pressão espanhola se tornou ainda maior, em especial porque os marcadores da Suíça davam sinais de cansaço. Com um banco de reservas que seria titular absoluto em qualquer outra seleção da Copa, Vicente Del Bosque desfilou seus atacantes no gramado. Primeiro, com Fernando Torres no lugar do volante Busquets. E, em seguida, com a troca de David Silva por Navas.

A bola chegou ao gol de Benaglio inúmeras vezes, e ele abafava o grito dos torcedores da Espanha a cada defesa. Até que Xabi Alonso acertou um belíssimo chute de fora da área. Mas a melhor chance da equipe acabou com o barulho do travessão. E o barulho, de fato, ficava restrito às vuvuzelas.

Aos poucos, o desgaste deixava a defesa espanhola parecendo um queijo suíço. Nos espaços cedidos pelos espanhóis, Derdiyok conseguiu chegar ao caminho do gol de Casillas. Mas desta vez, o chute (que também saiu prensado pelos marcadores) bateu na trave. Foi a única travessura da Suíça após estar em vantagem no placar. Bastou ficar em seu campo, aproveitando a tensão dos adversários, para conseguir os três pontos.

Numa partida que prometia ser histórica em futebol fascinante e em quantidade de gols, a segunda parte foi descartada. E, por ironia, o gol veio de uma seleção conhecida por seu esmero em se defender (e que chegou a cerca de oito horas e meia sem que um goleiro buscasse a bola de dentro de seu gol em uma Copa do Mundo).

À Espanha, resta juntar os cacos da frustração da derrota por 1 a 0 (e da perda de Iniesta, que saiu contundido no final do jogo e foi substituído por Pedro) e tentar nas duas partidas restantes justificar o epíteto de Fúria. Embora uma vitória sobre a fraca seleção de Honduras não ser a mesma coisa. Mais do que derrubar seus adversários. Mais do que comprovar o bom futebol que a elevou a grande favorita do torneio. A Espanha entrará em campo a partir de agora para enfrentar o estigma de "seleção que amarela na decisão" que ostenta em sua camisa desde sua primeira participação numa Copa do Mundo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Burocracia sem misericórdia



Análise de jogo: Brasil 2 x 1 Coreia do Norte (Ellis Park, Johanesburgo, 15h30 de Brasília)

Da expectativa do jogo contra a Coreia do Norte, teoricamente o adversário mais fraco de seu grupo, restou apenas o muxoxo "resultado bom para uma estreia". A ansiedade de um primeiro jogo de Copa do Mundo (em especial por trazer seis jogadores que estreavam na competição), o cansaço do fim de temporada na Europa e até a adaptação à Jabulani, polêmica "bola da Copa da África", serão as justificativas mais óbvias para poupar a Seleção Brasileira nas resenhas esportivas de qualquer esquina. Mas não há como deixar de lado a ideia de que Brasil de 2010 dá sinais preocupantes para sua torcida.

A Coreia do Norte deixou clara sua intenção na noite: não tomar gols, fato que pouparia a Seleção Brasileira do incômodo trabalho de ter de estudar o adversário para, aí sim, tentar vencer seu bloqueio. No entanto, o que parecia fácil se tornou difícil graças ao maior ponto fraco do Brasil de Dunga. Somente Kaká recebia marcação forte, e sempre era cercado por três ou quatro norte-coreanos quando pegava a bola. E isto foi o bastante para deixar o primeiro tempo sem nenhum gol marcado.

O Brasil visto nos primeiros 45 minutos foi somente um grupo de jogadores bem distribuídos taticamente. Toda vez que um estava com a bola, os outros permaneciam em seus lugares, quietos, atentos. Nenhuma perspectiva de inspiração, nenhum improviso surgido no momento do lance. Uma seleção sem magia. Ou melhor, com a magia restrita aos pés de Robinho, que pareciam fora de lugar num time tão previsível.

Sem poder de ataque - pois, além da inoperância de Kaká, Robinho não conseguia boas jogadas e Luís Fabiano aparecia somente ao cometer faltas nos zagueiros adversários - coube à "melhor defesa do mundo" ser o ataque aos 10 minutos. Perto da linha de fundo, o lateral Maicon completou passe de Elano com um chute sem ângulo que entrou no fundo da rede, surpreendendo o goleiro Myonge Guk. 1 a 0 Brasil.

Os minutos seguintes deram a impressão de que o mau primeiro tempo tinha sido apenas pela tensão de estreia da Copa do Mundo. O Brasil parecia mais solto, e pressionava a Coreia do Norte a todo tempo. Depois de duas chances desperdiçadas com Luís Fabiano, a Seleção Brasileira conseguiu fazer seu segundo gol. Da intermediária, Robinho lançou Elano, que, de primeira, marcou 2 a 0 para o Brasil aos 26.

Com o jogo praticamente definido, Dunga se deu ao luxo de testar um esquema ofensivo. Logo depois de fazer seu gol, Elano saiu para a entrada de Daniel Alves. A 15 minutos do fim, Kaká foi substituído por Nilmar. A Seleção Brasileira consolidou seu maior volume de jogo, e teve boas chances nos pés do atacante.

A possibilidade de mudar de vez o padrão da equipe veio na troca do botinudo Felipe Melo pelo volante habilidoso Ramires. Mas a habilidade dele não estava num dia inspirado, e o jogador só foi notado por ser o único na partida a receber um cartão amarelo do árbitro húngaro Viktor Kassai.

O tiro de misericórdia à expectativa de uma Seleção Brasileira mais próxima do Brasil de outrora aconteceu a dois minutos do fim. Yum Nam aproveitou falha no lado direito brasileiro e chutou na saída de Júlio César, dando números finais à partida.

Um erro da defesa, mas que Dunga certamente vai depositar na conta do esquema ofensivo que tentou. Afinal, a tática defensiva parece a única saída para garantir três pontos do Brasil. A consequência da vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Norte é a de que os sinais de burocracia vão ficar mais alarmantes aos olhos da torcida na trajetória da Copa do Mundo de 2010.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Adversários paradoxais



Os primeiros dias de Copa do Mundo serviram como sinal de alerta para o jogo de amanhã da Seleção Brasileira. À exceção da Alemanha (que goleou por 4 a 0 a Austrália), todas as seleções consideradas favoritas passaram por problemas em suas estreias na África do Sul. A Argentina teve uma vitória apertada, enquanto França, Inglaterra e Itália empataram seus respectivos jogos. Amanhã, chega o dia do Brasil passar pelo primeiro desafio rumo ao hexa, diante da Coreia do Norte.

Além da seleção asiática, os 11 brasileiros que estarão amanhã em campo vão enfrentar outros adversários - adversários psicológicos. Nos dias de hoje, em que convencionaram a ideia de "não haver mais time bobo no futebol brasileiro", o risco de partir para o ataque desde o primeiro minuto é visto como temeridade, em especial se o nervosismo impedir que os gols venham. Ficar recuado contra um adversário teoricamente mais fraco cheira a covardia, e vai deixar a torcida ainda mais desconfiada do que quando a Seleção Brasileira foi convocada.

Diante de uma seleção que certamente virá fechada, chegar na área adversária através do toque de bola pode expor os jogadores a contusões. Mas reduzir as tentativas de ataque da Seleção Brasileira a cruzamentos para a área ou confiar exclusivamente nas cobranças de falta de Elano parece pouco na mentalidade de um time que pretende ser campeão.

Sentimentos embaralhados como estes justificam as decepcionantes estreias de seleções consideradas favoritas. Tratam-se de 90 minutos carregando uma tradição nas costas, o que faz com que jogos ditos como fáceis se tornem difíceis. A história recente do Brasil nas Copas traz exemplos - nas estreias anteriores, 2 a 1 sobre a Escócia em 1998, 2 a 1 sobre a Turquia em 2002 e 1 a 0 sobre a Croácia em 2006.

No entanto, jamais será justificável que a Seleção Brasileira entre em campo sem nenhuma vontade, ou com a acomodação de um time que acha que vai resolver a partida quando quiser. Afinal, do outro lado haverá uma equipe extremamente motivada. A frase de seu ônibus - "1966 de novo! Vitória para a Coreia do Norte" (em referência à Copa na qual a seleção conseguiu sua melhor colocação, um oitavo lugar) - traz a única clareza em meio ao mistério do país. Os norte-coreanos vão entrar em campo dispostos a fazer e refazer uma história, e surpreender um adversário de destaque seria um ótimo indício para a campanha ser bem-sucedida na África do Sul.

O paradoxo entre sangue frio e necessidade de fazer uma estreia convincente dão um sabor a mais à partida contra a Coreia do Norte. Falta à Seleção Brasileira adoçar a terça-feira do país do futebol.

domingo, 13 de junho de 2010

Estratégia da desordem



Os primeiros dias de Copa do Mundo na África do Sul deram ao Brasil uma certeza: sim, o Brasil tem tudo para sediar a próxima edição do torneio, em 2014. Uma pena é que, para isto, os jornalistas tenham de nivelar por baixo a desorganização atual sul-africana, com problemas semelhantes aos enfrentados pelos brasileiros numa ida a um estádio.

Tanto Juca Kfouri quanto José Geraldo Couto, colunistas de esporte da Folha de S. Paulo, apontaram estas coincidências entre a atual rotina da África do Sul na Copa e o Brasil futebolístico. Trânsito caótico, desorganização no setor da imprensa, filas intermináveis para entrar no estádio. Coisas corriqueiras no país do futebol.

Um alento para a falta de estrutura atual dos estádios brasileiros, que precisam resolver questões como aumento de lugares, problemas em seus arredores, atrasos no início das obras ou superfaturamento antes mesmo dos trabalhos começarem. A vontade da FIFA esbarrou em burocracias brasileiras estapafúrdias - como o adiamento do fechamento para obras do estádio do Maracanã somente porque o Flamengo participaria da Taça Libertadores da América em 2010. E o mais estranho é que o futuro palco da final da Copa de 2014 havia passado por obras visando o Pan-Americano de 2007. Em apenas três anos o estádio ficou obsoleto? A sensação é de que só lembram de trazer melhorias a ele numa possibilidade de uma competição internacional.

Estádios nordestinos, como o Castelão e a Arena Capibaribe, e no Sul, o Beira-Rio, campo do Internacional, esbarraram em esperas de licitações, que podem atrasar um pouco mais o dia da entrega final. O Morumbi segue em negociação com a FIFA, e vê a vontade de sediar o jogo de estreia de 2014 cada vez mais distante. Entretanto, Juca Kfouri comprova que os estádios de Johanesburgo não diferem muito do campo do São Paulo. E, sem dúvida, a capital paulista não pode ser excluída de uma festa brasileira. O estado hoje é o que mais tem times nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro.

Os primeiros dias da Copa do Mundo empolgaram o Brasil. Não pela ansiedade em fazer uma festa mais alegre do que foi mostrado na África do Sul. Mas pelo alívio de saber que há possibilidade da bagunça de 2010 ser perdoada também quatro anos depois. A estratégia da desordem pode ser adotada na Copa do Mundo de 2014 sem o menor problema. Como disse bem o jornalista José Ilan, do GloboEsporte.com, "definitivamente, a FIFA não sabe com quem se meteu".

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No Twitter, O tempo e o placar... traz alguns pitacos sobre Copa do Mundo e sobre coisas que vêm acontecendo na intratemporada do futebol brasileiro. Sigam @otempoeoplacar e fiquem à vontade para comentar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A esperança na disritmia



Questionado se a influência do bom ambiente entre os jogadores de sua seleção pode ajudar nos resultados de dentro de campo durante a Copa do Mundo, o argentino Verón respondeu que "se alegria ganhasse jogo, o Brasil seria campeão sempre". Em seguida, o jogador provocou os brasileiros, dizendo que os argentinos não dançam samba. As alfinetadas dos "hermanos" são previsíveis, mas a Seleção Brasileira que está na África do Sul parece bem distante do samba de outrora.

As apresentações do Brasil na Era Dunga são mais voltadas para um arremedo de orquestra. Todos os seus comandados se empenham em fazer o que o treinador manda, conduzidos pelo toque de bola e pelo esquema criado durante os treinos. Até os momentos de improviso ou os solos têm seus compassos definidos, e são exclusivos para Robinho e Luís Fabiano (ou, quando muito, nos pés de Kaká e Ramires).

A sensação que o time de Dunga dá a cada partida é que seu campo está congestionado de carregadores de piano. E, enquanto o setor defensivo fica "pianinho", na hora do ataque a tendência é de que venham vários sons estridentes e desafinados atrás da harmonia do gol.

O Brasil da Copa do Mundo de 2010 se resumirá a dançar conforme a música. A seguir os arranjos pasteurizados criados pelo futebol europeu, nivelando ainda mais por baixo um torneio que promete poucos gols. Mais uma vez, a Seleção Brasileira ficará entregue à espera da disritmia do bom futebol, para não desafinar na competição.

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O tempo e o placar... informa: nestes 30 dias de Copa do Mundo, o blogue se dedicará exclusivamente a textos da Seleção Brasileira. Notícias dos clubes aparecerão em alguns dias, mas na seção Bola pro mato.