
O carnaval agora é cinza, mas a folia do Campeonato Estadual de 2009 certamente será lembrada em muitos outros carnavais de uma cidade do interior do estado. Beneficiado pelo imbróglio judicial que tirou seis pontos do Vasco na fase classificatória da Taça Guanabara, o Resende fez história ao vencer o Flamengo - franco favorito do Cariocão e até aquele momento o único time invicto na competição - por 3 a 1 diante de 27 mil torcedores no Maracanã.
No abre-alas da semifinal carioca, o festejado time rubro-negro capitaneado por Cuca foi deixado de lado, e todos os confetes e serpentinas se direcionaram ao modesto time de fora da capital. A súbita ascensão do Resende (que no dia primeiro de março tem chance de novamente surpreender, quando enfrentará na final da Taça Guanabara o vencedor da outra semifinal, Botafogo e Fluminense) aponta um panorama curioso que vem acontecendo no futebol carioca.
Desde 2003, quando o Estadual passou a ter o formato de nos dois turnos os finalistas serem conhecidos em confrontos diretos nas semifinais (primeiro de um grupo contra o segundo do outro), as equipes consideradas "pequenas" ganham destaque, tomando o lugar de algum dos quatro grande clubes do Rio - à exceção do ano passado, um campeonato atípico, no qual em todos os jogos os "pequenos" tiveram de jogar na casa dos "grandes". Americano, Cabofriense, Friburguense, Volta Redonda e Madureira figuraram entre os primeiros lugares dos recentes estaduais, e os dois últimos citados chegaram à final do torneio, sendo derrotadas no fim, respectivamente, por Fluminense e Botafogo.
O crescimento dos "clubes pequenos" (que também aconteceu em função da queda de qualidade dos gigantes do Rio de Janeiro) teve outras consequências no futebol carioca. Se, por um lado, os destaques nos nanicos muitas vezes ganham oportunidade de vestir uniformes mais tradicionais, do outro jogadores que não têm vez nos grandes se revelam excelentes jogadores de time pequeno.
Por não ter dinheiro suficiente para investir em jogadores mais conhecidos, o Vasco nos últimos anos foi o time que destinou seu foco de contratações nos atletas que apareciam no Campeonato Estadual. No ano passado, inclusive, o clube cedeu vários de seus jogadores ao Duque de Caxias (com a ressalva esdrúxula de que eles não poderiam atuar contra o time de São Januário). Da equipe da Baixada, subiu de produção o meia Madson, que foi novamente incorporado à equipe e lutou bastante em campo, mas não evitou a queda da equipe vascaína para a Série B do Brasileirão de 2009. Atualmente, o meia defende o Santos.
No entanto, Madson é uma exceção neste caso de jogadores que têm oportunidade de jogar em equipes de maior expressão no Rio - eles só têm bom rendimento quando defendem as cores de equipes pequenas. Um exemplo disso é o atacante Muriqui.
Em 2005, Muriqui despontou como uma promessa de gols no ataque do Vasco. Entretanto, contusões e um suposto problema de alcoolismo o afastaram do sucesso no clube. O atacante voltaria a ter destaque no Estadual do ano passado, quando seus gols chamaram atenção nas partidas do Madureira - dois deles na vitória do time sobre o próprio Vasco, por 2 a 1, em São Januário.
Após boas atuações no Estadual de Pernambuco, o atacante Valdir Papel chegou ao Vasco em abril de 2006. Sua presença não fazia grande diferença até um lance pelo qual ele será eternamente lembrado de maneira negativa pelos vascaínos. No segundo jogo da final da Copa do Brasil daquele ano, o Vasco precisava derrotar o Flamengo por três ou mais gols de diferença para ganhar o campeonato (o time da Gávea vencera o primeiro jogo por 2 a 0). Com 17 minutos de jogo, Papel deu um carrinho violento no lateral Leonardo Moura, e sua atitude infantil custou um cartão vermelho e a posterior dispensa no clube - e, para a equipe cruzmaltina, a derrota para o Flamengo por 1 a 0. Dois anos depois, o jogador teria visibilidade no Madureira.
Na contramão dos casos de Muriqui e Valdir Papel, o Estadual de 2008 mostrou o fugaz destaque do atacante Alexsandro. Atuando pelo Resende, Alexsandro marcou um dos gols do time que chegou a abrir 2 a 0 sobre o Flamengo no Maracanã - o time interiorano não resistiria à pressão e terminaria o jogo com uma derrota por 4 a 2. No intervalo, o atacante declarou que seu gol (de pênalti) era a "vingança" de um torcedor botafoguense que não gostou da provocação flamenguista na final da Taça Guanabara - os rubro-negros criaram a comemoração do "chororô", porque os jogadores alvinegros reclamaram da arbitragem naquela partida. Meses depois, Alexsandro foi contratado por seu time de coração, mas após alguns jogos, caiu no esquecimento.
Atualmente, o interior é a saída para muitos jogadores que estão prestes a pendurar as chuteiras mas ainda acham que podem render em campo. Somente neste Estadual, pode-se acompanhar as atuações do zagueiro Júnior Baiano (pelo Volta Redonda) e dos atacantes Sorato (no Tigres do Brasil) e Viola (atualmente no Resende).
A ida de um "pequeno" que vai para um "grande" não fica restrita às quatro linhas. O banco de reservas também faz parte deste rodízio carioca. Técnico responsável por levar o Volta Redonda ao vice-campeonato em 2005, Dario Lourenço foi contratado com
status de grande treinador pelo Vasco. Depois de 12 rodadas no Brasileiro e vendo o time amargar a presença na zona de rebaixamento, Lourenço foi demitido do clube.
Alfredo Sampaio tentou o mesmo caminho. Após boas passagens no comando de Cabofriense e Madureira, o técnico chegou ao Vasco no ano passado para ser auxiliar de Romário (em sua primeira empreitada no banco de reservas). Com o desentendimento entre o Baixinho e o presidente Eurico Miranda, Alfredo passou a responder como treinador do clube. Mas a derrota para o Volta Redonda por 2 a 1 em São Januário, aliada a desavenças com Edmundo, causaram sua demissão.
Nesta Taça Guanabara de 2009, brilhou a estrela de mais um jogador que está num clube pequeno mas "quer ser grande". O atacante Bruno Meneghel
(foto) é, até o momento, o artilheiro do Estadual, mas já entrou para a história do clube por outro motivo: ele ajudou a construir a vitória do Resende sobre o Flamengo.
Após o jogo, Meneghel acusou a antiga diretoria do Vasco de desprezar seu futebol. Segundo o atacante, Romário confiava em seu potencial e dizia que ele era bom jogador. Mas no dia seguinte à saída do ex-camisa 11, Bruno nunca mais teve oportunidade nem de ficar na reserva. Na primeira chance, deixou o clube.
Bem, apesar de ter feito muitos gols na primeira parte do campeonato, Bruno Meneghel também vem aparecendo pelo grande número de chances desperdiçadas em campo. Somente na partida do sábado de carnaval, foram dois gols perdidos.
Hoje o Rio de Janeiro conhecerá o clube credenciado a disputar com o Resende a final da Taça Guanabara. No próximo domingo, o futebol escreverá mais uma página desta saga que vem acontecendo com frequência no campeonato carioca. Mesmo tendo sido escrita através das linhas tortas do "tapetão", a trajetória atual do Resende ajuda a sobreviver a graça das histórias do futebol - que tem um vasto espaço para os "fracos" que derrubaram os mais fortes em tradição.