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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Os imponderáveis



INDEPENDIENTE, DA ARGENTINA, CAMPEÃO DA COPA SUL-AMERICANA DE 2010

Análise de quarta - Independiente (ARG) 3 x 1 Goiás (nos pênaltis, Independiente 5 a 3)

O Goiás ter conseguido chegar à decisão da Copa Sul-Americana era um feito imponderável para seu futebol - tanto por sua falta de tradição em competições internacionais quanto por sua ascensão acontecer numa temporada em que o clube terminou rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Só que os feitos imponderáveis nem sempre são favoráveis a equipes que surpreendem numa competição. Na noite de 8 de dezembro, os acasos futebolísticos favoreceram os argentinos do Independiente a se sagrarem campeões da Sul-Americana.

Não foi nenhuma surpresa o Independiente se lançar ao ataque desde os primeiros minutos, em especial por jogadas pelas laterais, que tentavam encontrar a dupla Parra e Rodríguez livre na área. No entanto, o trio de zaga formado por Rafael Tolói, Ernando e Marcão conseguia defender com eficiência a equipe goiana. Foram necessários 19 minutos e uma jogada de bola parada para que o time argentino ficasse em vantagem diante do Goiás. Fredes lançou para a área e, livre, Matheu chutou forte. Após defesa de Harlei, Velásquez, sem marcação, colocou a bola no fundo da rede. Independiente 1 a 0.

Apoiados por cerca de 40 mil torcedores, os argentinos passaram a apoiar com mais intensidade, à espera de mais um gol que igualasse o saldo da final (no primeiro jogo, os goianos venceram por 2 a 0 no Serra Dourada). Só que a iniciativa de jogadas ofensivas foi surpreendida por um erro no meio-de-campo. Wellington Saci conseguiu roubar a bola do adversário e, com fôlego, subiu pela esquerda. No cruzamento para a área, Rafael Moura desviou de cabeça para empatar. 1 a 1, aos 22 minutos.

O Goiás contava com seu ímpeto para superar o adversário na final. Só não contava com mais um fato imponderável capaz de atrapalhar sua partida decisiva em Avellaneda. Quatro minutos depois do gol sofrido, Ernando foi rechaçar uma tentativa de cruzamento. A bola bateu no calcanhar de Parra e partiu em destino ao fundo da rede de Harlei. Independiente 2 a 1.

Mas o acaso ainda seguia como forte adversário do Esmeraldino. Num cruzamento da direita, Marcão dividiu a jogada com Parra. Caído, o atacante conseguiu chutar, e o lance foi concluído com Harlei buscando a bola no fundo de sua rede. 3 a 1 Independiente, aos 34 minutos. Placar que, ao final do primeiro tempo, encaminhava a decisão para uma prorrogação de 30 minutos.

Na volta do intervalo, as equipes continuaram a atuar da forma apresentada no primeiro tempo. Forte pressão do Independiente (com poucas oportunidades claras para marcar) e o Goiás se defendendo intensamente. O que tornou o jogo diferente foi o equilíbrio que o time goiano conseguiu dar à partida.

Além de evitar que os jogadores adversários tivessem muitas oportunidades - as duas chances foram com Parra, uma com boa defesa de Harlei e outra quando o atacante errou num cruzamento e quase surpreendeu o goleiro - o Esmeraldino dominou o jogo, graças ao seu preparo físico superior. Nem com as duas alterações que o técnico Antonio Mohamed fez (Gómez e Gracian em lugares de Martinez e Rodriguez) "El Rojo" encontrou forças para segurar o empenho adversário.

O Goiás teve várias oportunidades, e numa delas chegou a marcar, mas o gol foi anulado por impedimento de Otacílio Neto, mas desperdiçou todas elas. Em duas chances com Rafael Moura, o time foi derrotado pelo imponderável. Num lance, o atacante dois zagueiros, mas foi travado pelo goleiro Navarro na hora do chute. Em outro, diante do arqueiro adversário, a opção de dominar a bola antes de arriscar fez com que seu chute fosse para fora. Aos 46 minutos, Oscar Ruiz encerrou o tempo regulamentar, e o mistério do título da Sul-Americana duraria ao menos mais 30 minutos de prorrogação.

Prorrogação na qual o Goiás foi soberano, em empenho e em velocidade. Com a entrada de Éverton Santos no lugar de Carlos Alberto e, principalmente, pela partida sensacional que Felipe (substituto de Otacílio Neto) vinha fazendo desde os 30 minutos do segundo tempo, o time goiano parecia cada vez mais próximo do gol.

Só que os grandes momentos do Goiás pararam no imponderável do futebol. A um minuto, um cruzamento de Rafael Moura passou por toda a área e parou na cabeça de Rafael Tolói. O zagueiro, sozinho, desviou de cabeça, e a bola bateu na trave. Três minutos depois, uma cobrança de escanteio chegou até Marcão, que cabeceou. Navarro defendeu e, na volta, Marcão colocou a bola no fundo da rede. Mais um gol anulado por impedimento.

Os últimos minutos mostraram um contraste atípico em jogos decisivos de futebol. O visitante Goiás passava os minutos se impondo, arriscando jogadas e tentando o gol, alheio aos 40 mil torcedores de Avellaneda. Era o mandante Independiente que se portava como time que atua fora de casa, ansioso a ponto de não conseguir trocar passes e associando a decisão por pênaltis a um momento de alívio. O indício era de que o melhor preparo físico e a pressão psicológica do adversário favorecessem o alviverde goiano na decisão por pênaltis da Copa Sul-Americana.

Vieram as cobranças. Velázquez abriu o placar para o Independiente. Rafael Tolói empatou. Parra fez o segundo do time argentino. Éverton Santos marcou o segundo dos goianos. Gracián fez 3 a 2 para a equipe de Avellaneda.

E na disputa de penalidades máximas, novamente o imponderável surgiu de maneira decisiva. O atacante Felipe, que passou da esperança de gols do Goiás no Campeonato Brasileiro de 2010 a um jogador relegado ao banco de reservas, entrara bem na decisão da Copa Sul-Americana e, agora, nos pênaltis, poderia ser ainda mais importante para a história do alviverde goiano. Poderia. Se sua cobrança rasteira não parasse na trave.

Matheu fez o quarto gol do Independiente. Rafael Moura ainda diminuiu a diferença argentina, mas a cobrança do lateral Tuzzio deu o título a "El Rojo" - que se vestira de azul neste jogo de Avellaneda, para sua sorte então mudar, a ponto de ser o primeiro clube campeão da Copa Sul-Americana credenciado para disputar a Taça Libertadores da América do ano seguinte. O grande vencedor do principal campeonato da América do Sul tentará em 2011 seu oitavo título - além da busca por resgatar a tradição perdida nas últimas décadas (sua conquista mais recente na Libertadores foi em 1984).

Passada a campanha surpreendente na Copa Sul-Americana, o Goiás agora volta à amarga realidade de um time que passará 2011 disputando a Série B do Campeonato Brasileiro. Restam o ímpeto e a certeza de que a equipe batalhou até o fim para superar até mesmo a adversidade de todo ano de 2010. Mas fica a lição de que nem sempre o imponderável triunfa no futebol. E, com o título do Independiente, a sexta vaga brasileira na Taça Libertadores da América de 2011 fica para o Grêmio, quarto colocado no Campeonato Brasileiro deste ano, que fez uma campanha digna de reconhecimento dentro do campo. Mais digna do que o penúltimo lugar do Esmeraldino no Brasileirão.

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INDEPENDIENTE (ARG) 3 x 1 GOIÁS (nos pênaltis, Independiente 5 a 3)

Estádio: Libertadores de America (Avellaneda, Argentina)

Árbitro: Oscar Ruiz (COL) / Auxiliares: Abraham González (COL) e Humberto Clavijo (COL).

Gols: Velázquez, aos 19, Rafael Moura, aos 21 e Parra, aos 24 e aos 34 minutos do primeiro tempo.

Disputa de pênaltis: Velázquez, Parra, Gracián, Matheu e Tuzzio marcaram para o Independiente. Rafael Tolói, Éverton Santos e Rafael Moura marcaram para o Goiás. Felipe, do Goiás, desperdiçou sua cobrança.

Cartões amarelos: Tuzzio, Matheu, Velázquez, Navarro (Independiente), Otacílio Neto, Rafael Moura e Rafael Tolói (Goiás).

INDEPENDIENTE - Navarro, Tuzzio, Matheu, Velázquez e Mareque; Cabrera, Battion, Fredes (Maxi Velázquez) e Martinez (Gomez); Rodriguez (Gracián) e Parra. Técnico: Antonio Mohamed.

GOIÁS - Harlei, Rafael Tolói, Ernando e Marcão; Douglas (Éverton Santos), Amaral, Carlos Alberto, Marcelo Costa e Wellington Saci; Otacílio Neto (Felipe) e Rafael Moura. Técnico: Artur Neto.

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Com este texto, O tempo e o placar... chega às suas 500 postagens. Marca emocionante para quem começou o sonho de mostrar seu ponto de vista esportivo no ano passado. Muito obrigado a todos vocês!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Extremos guerreiros



Análise de jogo: Goiás 2 x 0 Independiente (ARG) (22h, Serra Dourada)

O Goiás pisou no gramado do Serra Dourada em busca de muito mais do que ultrapassar novos limites da superação internacional ,depois de um grande insucesso no Campeonato Brasileiro de 2010. Os jogadores precisavam dar uma boa resposta aos mais de 35 mil torcedores que ocuparam as arquibancadas com uma festa que teve direito ao "maior mosaico para um clube no Centro-Oeste brasileiro". Também ansiavam por responder à crítica esportiva, que além de passar a semana questionando a postura que tomaria o time goiano contra o tradicional Independiente, ainda se esforçava para entender como uma equipe tão fraca chegara à final da Copa Sul-Americana.

As respostas vieram com bastante clareza no primeiro tempo. Aos sedentos por tática, o técnico Artur Neto apresentou um 3-5-2, considerado defensivo, em especial porque o Goiás traz um trio de zaga acima da média, com Rafael Tolói, Ernando e Marcão. Mas que levou o time à frente pela maneira como o jogo se desenhou. O time argentino se fechou na defesa, amparado também pelo 3-5-2, mas disposto a gastar o tempo para deixar a torcida goiana impaciente.

Só que os torcedores esmeraldinos tiveram como resposta mais motivos para comemorar. Um zagueiro tentou rechaçar uma tentativa adversária, mas a bola explodiu no pé de Carlos Alberto. Na sobra, Rafael Moura, com oportunismo, chutou sem chance para Navarro. Goiás 1 a 0, aos 14 minutos.

Em vantagem no placar e com o adversário ainda atônito, o Goiás continuou sua pressão, capitaneada pelo meia Marcelo Costa e pela dupla Otacílio Neto e Rafael Moura, mas em alguns momentos perdeu oportunidades pela ansiedade de seus jogadores. Num destes erros, Cabrera chutou e fez com que Harlei espalmasse a bola para escanteio.

Lance isolado, em meio a um grande duelo entre o ataque do Goiás e a defesa do Independiente. O embate teve mais um momento com supremacia alviverde aos 21 minutos. Após jogada iniciada por Marcelo Costa, Douglas desceu pelo lado direito. Ao tentar um drible, o adversário conseguiu cortar, mas, no rebote, Otacílio Neto estava livre para colocar a bola novamente no fundo da rede de Navarro. 2 a 0 Goiás

Dois gols que fizeram jus a tanto apoio vindo das arquibancadas. Embora nos últimos minutos sua equipe tenha jogado na base do chutão, o Goiás teve superioridade diante de um violento e praticamente inofensivo Independiente.

O técnico Antonio Mohamed alterou a postura defensiva da equipe argentina no intervalo. O volante Godoy saiu, para a entrada do meia Pato Rodríguez. Os goianos mantiveram o ritmo do primeiro tempo nos minutos iniciais da segunda etapa.

Mas, devido aos espaços deixados para a dupla de ataque Parra e Silvera, os esmeraldinos passaram a priorizar o desejo de evitar sofrer gols. Parecia que o Goiás desconhecia o regulamento da Sul-Americana - na decisão, o critério de "gol marcado fora de casa" não existe, o saldo de gols é o único diferencial. Basta o adversário conseguir uma vitória pela mesma diferença para forçar a prorrogação (e, no caso do empate persistir, o campeão será definido após uma disputa de pênaltis).

Nem mesmo a expulsão de Silvera - após cotovelada desleal em Rafael Tolói - fez com que o alviverde goiano tivesse sede para marcar o terceiro gol. Enquanto o Independiente chegava apenas em lances de bola parada, os guerreiros alviverdes partiam para o outro extremo de suas características. Do ataque constante, sobraram cautela e muita cadência na troca de passes.

Apesar do coro da torcida começar os gritos de "mais um", o resultado parecia satisfatório também para Artur Neto. O técnico mexeu no time apenas aos 34 minutos, para trocar um atacante por outro - o cansado Otacílio Neto por Éverton Santos. Felipe, atacante que teve seu nome gritado pelos torcedores, só entrou a três minutos do fim - em lugar do meia Marcelo Costa. Àquela altura, seus companheiros estavam cansados e o Independiente resumia sua ação a não sofrer uma goleada - seu treinador também mudou o time apenas nos minutos finais, colocando Matheu e Maxi Velásquez nos lugares de Cabrera e Fredes, respectivamente).

Os fogos do Serra Dourada mostraram a explosão de um Goiás que chegou aos seus extremos em 90 minutos. O time de guerreiros apresentou uma postura ofensiva aliada a uma imensa cautela, conseguiu que sua tática defensiva ganhasse também um bom poder de ataque, e mostrou uma superioridade digna de uma vitória maiúscula, e não refletida no placar.

Apesar de estar com um futebol bem aquém de sua tradição (são sete títulos da Taça Libertadores da América, o maior vencedor da história da competição), "El Rojo" volta para a Argentina com a sensação de que seus guerreiros não tiveram um desempenho tão ruim com sua postura defensiva. Em Avellaneda, a tendência é de que o Independiente queira comandar as ofensivas da guerra. E o Goiás tem uma semana para saber qual faceta deve levar a Buenos Aires para a finalíssima da Copa Sul-Americana.

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GOIÁS 2 x 0 INDEPENDIENTE (ARG)

Estádio: Serra Dourada (Goiânia / GO)

Público: 35.500 pagantes. / Renda: R$ 912.940,00.

Árbitro: Carlos Torres (PAR). / Auxiliares: Nicolás Yegros (PAR) e Rodney Aquino (PAR).

Gols: Rafael Moura, aos 14, e Otacílio Neto, aos 21 minutos do primeiro tempo.

Cartões amarelos: Otacílio Neto, Carlos Alberto (Goiás), Velasquez e Galeano (Independiente).

Expulsão: Silvera (Independiente).

GOIÁS - Harlei, Rafael Tolói, Ernando e Marcão; Douglas, Carlos Alberto, Amaral, Marcelo Costa (Felipe) e Wellington Saci; Otacílio Neto (Éverton Santos) e Rafael Moura. Técnico: Artur Neto.

INDEPENDIENTE - Navarro, Velasquez, Tuzzio e Galeano; Cabrera (Matheu), Battion, Fredes (Maxi Velasquez), Godoy (Pato Rodríguez) e Mareque; Parra e Silvera. Técnico: Antonio Mohamed.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O dois a um do Pacaembu



Análise de quarta - Palmeiras 1 x 2 Goiás (21h50, Pacaembu)

O placar de 2 a 1 para a equipe visitante parece ser a tônica das grandes surpresas que cercam os estádios brasileiros. Por 2 a 1 foi a vitória do Uruguai sobre o Brasil no Maracanã, na decisão da Copa do Mundo de 1950. Também em 2 a 1 terminou a vitória do argentino Estudiantes sobre o Cruzeiro, no Mineirão, pela final da Taça Libertadores da América de 2009. E em 2010, o Pacaembu foi palco de um jogo com contornos bem próximos a estas duas partidas. Um estádio repleto de torcedores do time da casa, eufóricos com a vantagem de um resultado (no caso, bastava um empate) sobre um adversário que vinha desacreditado. Mas, depois de 90 minutos, o Goiás - time que começou a semana rebaixado para a Segunda Divisão de 2011 com uma rodada de antecedência - conquistou uma inacreditável vaga para a final da Copa Sul-Americana. Com uma vitória por 2 a 1 sobre o anfitrião Palmeiras.

Os mais de 34 mil palmeirense que foram ao Pacaembu na noite de quarta-feira levaram para a arquibancada a confiança de que a batalha mais difícil havia ficado para trás. Com o gol de Marcos Assunção que sacramentou a vitória por 1 a 0 no Serra Dourada na semana anterior, o time goiano não teria força nem técnica suficientes para superar um Palmeiras que durante a semana anunciou concentração máxima na conquista da Copa Sul-Americana (ao ponto de escalar os reservas nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro).

O panorama do primeiro tempo não diferiu muito da expectativa da torcida. O Palmeiras apresentou mais volume de jogo, cercando a área do Goiás com jogadas criadas por Tinga e Lincoln. Vieram algumas oportunidades, com Danilo e num chute de Tinga que foi desviado com os dedos por Harlei e parou na trave. Nem mesmo a ausência de oportunidades vindas dos pés de Luan e Kléber parecia suficiente para que a bola entrasse na rede.

A postura do Goiás contribuía para o domínio palmeirense. Além de um trio de zaga, a equipe apresentava muitos jogadores de qualidade duvidosa, como os laterais Douglas e Wellington Saci e o meia Marcelo Costa. No entanto, depois da pressão inicial, o Esmeraldino aos poucos foi conseguindo ameaçar o gol de Deola com sua dupla Otacílio Neto e Rafael Moura. O último acertou um belo chute que bateu no travessão do Palmeiras.

Se a bola de Rafael Moura teve como destino o travessão, aos 33 minutos o alviverde paulista teve mais pontaria. Após receber um lançamento de Edinho, Luan avançou até a área, desviou-se de um zagueiro e chutou. A bola ainda resvalou nos dedos de Harlei antes de parar no fundo da rede. Palmeiras 1 a 0.

Os palmeirenses seguiam à risca o verso do hino do clube que aparecia num mosaico - "Torcida que canta e vibra" - e faziam festa no Pacaembu. Dentro de campo, o time de Luiz Felipe Scolari demonstrava serenidade para manter a vantagem. Mas, nos acréscimos, o Goiás reencontrou-se com a possibilidade de chegar à final da Copa Sul-Americana. Primeiro, com uma cobrança de falta de Marcelo Costa que parou no travessão. A zaga rechaçou, mas Rafael Moura recuperou a bola e fez um cruzamento. A jogada terminou numa cabeçada de Carlos Alberto que desviou em Tinga antes de entrar no fundo da rede de Deola. Aos 47 minutos, Palmeiras e Goiás iam para o intervalo com o empate em 1 a 1.

Na volta para o segundo tempo, o Palmeiras sentiu. Não a alteração do treinador do Goiás, Artur Neto, que tirou o lateral-direita Douglas para colocar em campo o atacante Felipe. Mas lidou com o empate do Esmeraldino no último momento da primeira etapa como se fosse algo inesperado, inimaginável. E a sensação de que seu favoritismo estava ainda mais ameaçado (se sofresse um gol, estaria desclassificado da Copa Sul-Americana pelo critério "gol marcado fora de casa") atou os pés dos jogadores palmeirenses.

Os chutes a gol ficaram cada vez mais escassos, e quando vieram, como nos dois chutes de Kléber, saíram sem qualquer direção. Enquanto isto, os goianos se apresentavam com mais frequência, graças aos contra-ataques originados por erros palmeirenses. Por duas vezes, Otacílio Neto chutou ao gol, e obrigou Deola a fazer grande defesa.

Luiz Felipe Scolari tentou dar mais poder ofensivo à equipe, trocando o meia Lincoln pelo atacante Dinei. Mas a substituição revelou-se equivocada. Sem Lincoln, o Palmeiras perdia um pouco do seu poder de armar jogadas, e Dinei apenas se juntava a Luan e Kléber na esperança de chegarem novas oportunidades de gol.

O Palmeiras errava. E um erro foi crucial aos 38 minutos. Márcio Araújo se atrapalhou na defesa e permitiu que Marcão avançasse pela lateral. Da linha de fundo, o jogador cruzou para a área. Rafael Moura conseguiu cabecear para o lado onde estava Ernando. Livre de marcação, o zagueiro desviou a bola de cabeça para o fundo da rede. O "azarão" da noite colocava em xeque o favoritismo palmeirense, com o mesmo placar de 2 a 1 que passou por outros grandes estádios brasileiros.

Com a mudança no placar, os treinadores agiram de acordo com o contexto de cada equipe. Artur Neto tirou o atacante Otacílio Neto e reforçou o setor defensivo do Goiás, colocando em campo o volante Jonílson. Felipão trocou o meia Tinga pelo meia-atacante Ewerthon. Mas a serenidade em verde e branco agora estava do lado do time goiano, que se encolheu bem na defesa e deixou o Palmeiras ser derrotado por seu próprio desespero.

Desespero que culminou numa grande frustração para a torcida do alviverde paulista - e não só por ver a vaga para a final da Copa Sul-Americana escorrer pelos dedos. O Palmeiras termina de maneira melancólica um ano que começou com uma campanha pífia no Campeonato Paulista, teve uma eliminação lamentável na Copa do Brasil (diante do Atlético Goianiense, nos pênaltis, após desperdiçar quatro de uma série de cinco penalidades máximas) e passou bem longe do título do Campeonato Brasileiro. A ironia final pode acontecer no domingo: caso a equipe vença o Fluminense na Arena Barueri e o Corínthians derrote o Vasco no Pacaembu, os arquirrivais corintianos se aproximarão da conquista do Brasileirão de 2010.

Além da raça, da dedicação e da seriedade, a equipe do Goiás mostrou o desejo de reescrever sua história. Com a trajetória maculada por um rebaixamento para a Série B, o Esmeraldino agora cria forças para chegar a grandes sonhos dos clubes nacionais. O primeiro deles é conquistar a Copa Sul-Americana, que seria seu primeiro grande título internacional - seu adversário na decisão será o vitorioso do duelo entre o argentino Independiente e o equatoriano LDU (a LDU venceu o primeiro jogo, em Quito, por 3 a 2). O segundo é conseguir uma vaga na Taça Libertadores da América, que a Sul-Americana dará a seu campeão.

Mas o Goiás que enfrentou o Palmeiras em 24 de novembro de 2010 já ficou marcado na história. Graças a ele, o Pacaembu teve seu episódio de um time favorito ser derrubado com uma derrota por 2 a 1. E mais um estádio brasileiro se tornou pano de fundo da grande lição do futebol: favoritismos existem para serem derrubados.


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PALMEIRAS 1 x 2 GOIÁS

Estádio: Pacaembu (São Paulo / SP).

Público: 34.296 presentes / Renda: R$ 711.429,00.

Árbitro: Héber Roberto Lopes (BRA) / Auxiliares: Altemir Hausmann (BRA) e Alessandro Rocha (BRA).

Gols: Luan, aos 33 minutos, e Carlos Alberto, aos 47 minutos do primeiro tempo. Ernando, aos 38 minutos do segundo tempo.

Cartões amarelos: Douglas, Marcão e Carlos Alberto (Goiás).

PALMEIRAS - Deola, Márcio Araújo, Danilo, Maurício Ramos e Gabriel Silva; Edinho, Marcos Assunção, Tinga (Ewerthon) e Lincoln (Dinei); Luan e Kléber. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

GOIÁS - Harlei, Rafael Tolói, Ernando e Marcão; Douglas (Felipe), Carlos Alberto, Amaral, Marcelo Costa e Wellington Saci; Otacílio Neto (Jonílson) e Rafael Moura. Técnico: Artur Neto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Brasil em verde





A parte brasileira na Copa Sul-Americana ganhou um tom verde após os dois confrontos deste meio de semana. Em São Paulo, o Palmeiras eliminou o Atlético Mineiro com uma vitória por 2 a 0. No Ressacada, o Goiás surpreendeu o Avaí com uma vitória por 1 a 0, suficiente para prosseguir seu caminho na competição.

Como o campeão está classificado para a Taça Libertadores da América, ambas as equipes podem compensar um ano que se desenha como perdido. Com decepções que podem ser mais amargas para o time goiano, que se vê cada vez mais próximo da zona de rebaixamento.

O mau desempenho do Goiás teve início ainda no Campeonato Goiano, quando a equipe ficou por algumas rodadas em último lugar e, depois de se recuperar, caiu a ponto de não ir nem para a final contra o Atlético Goianiense. No Campeonato Brasileiro, o martírio se estende a cada rodada, mesmo com incessantes trocas de treinadores. E a derrota por 4 a 1 para o lanterna Grêmio Prudente ainda não foi suficiente para eliminar matematicamente o descenso. Mas, psicologicamente, a equipe sofreu um abalo emocional.

O Palmeiras também teve um Campeonato Paulista extremamente desanimador, com o período frustrante sob o comando de Muricy Ramalho e a incerteza de ter como técnico o inexperiente Antônio Carlos Zago. O clube abriu os cofres, trouxe de volta ao país o treinador Luiz Felipe Scolari e fez a torcida ficar à espera de novos e vitoriosos rumos. Entretanto, Felipão não teve à sua disposição um elenco de qualidade, o que comprometeu seu trabalho. No Brasileirão, os palmeirenses também brigam por uma vaga na Libertadores - mas ela parece estar bem mais próxima através da Copa Sul-Americana.

Diante de suas últimas fichas no ano de 2010, Palmeiras e Goiás prometem fazer um duelo de muito empenho, em busca de dar alegria a seus torcedores - tanto para este ano como na expectativa pela vaga na Taça Libertadores da América de 2011. Neste confronto de alviverdes, nenhum deles vai querer que o branco se sobressaia.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O segundo raio?



No ano passado, o Fluminense chegou à reta final do Campeonato Brasileiro nas últimas colocações, com mais de 90% de probabilidade de cair para a Série B em 2010. Entretanto, numa arrancada sensacional, conseguiu se manter na Série A do Campeonato Brasileiro. Sem dúvida, graças à campanha que o tricolor das Laranjeiras fez na Copa Sul-Americana - competição na qual chegou à final, quando foi derrotada pela equipe equatoriana da LDU.

Na Sul-Americana deste ano, três dos quatro clubes brasileiros estão na zona de rebaixamento - Avaí, Atlético Mineiro e Goiás. E o esmeraldino goiano conseguiu ser uma grata surpresa em sua primeira disputa internacional no torneio. Após vencer por 1 a 0 no Serra Dourada, a derrota por 3 a 2 para o Peñarol no território uruguaio levou o time à fase seguinte, na qual vai jogar contra o vencedor de Avaí e Emelec, do Equador (a segunda partida será realizada amanhã).

A equipe goiana vem oscilando no Brasileirão, e mesmo nas partidas em que sai derrotada, demonstra bastante raça e disposição. Mesmo contexto do Fluminense em 2009. É bem verdade que, enquanto o tricolor carioca tinha nomes como Conca e Fred, hoje o Goiás tem jogadores de qualidade inferior a esta dupla, como Bernardo e Felipe. No entanto, com os resultados aparecendo na Copa Sul-Americana, certamente os jogadores ficarão mais estimulados para a reta final do Campeonato Brasileiro.

No novo contexto da competição nacional - em que a quarta vaga pode ser cedida ao vencedor da Sul-Americana - o torneio da América do Sul corre o risco de ganhar uma dimensão mais atípica aos olhos da lógica do futebol. Um frequentador constante do Z-4 corre o risco de desbancar uma das melhores equipes do Campeonato Brasileiro. Pelo visto, o futebol brasileiro vai ficar muito atento à possibilidade de tempestades em ambas as competições. Para que a chance de cair um segundo raio na Copa Sul-Americana e no Campeonato Brasileiro seja afastada de vez.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Jogo dos ausentes



Análise de quarta - Goiás 4 x 1 Botafogo (19h30, Serra Dourada)

O bom momento no Campeonato Brasileiro e as opções que Joel Santana tem na parte ofensiva eram razões suficientes para que o Botafogo entrasse como favorito, mesmo com o Goiás jogando no Serra Dourada. Mas o torcedor alvinegro não contava com a possibilidade de que as ausências não seriam apenas no papel. A ausência permaneceu em campo, e prejudicou a oportunidade dos botafoguenses tentarem a vice-liderança no Campeonato Brasileiro nesta rodada.

O ala esquerdo Marcelo Cordeiro, os meias Somália e Marcelo Mattos e os atacantes Herrera e Jóbson eram os desfalques iniciais. Em seus lugares, Joel Santana improvisou o meia-atacante Edno na ala, e compôs o meio com Fahel, Lúcio Flávio e Renato Cajá. Maicosuel foi escalado para atuar mais adiantado, com a função de municiar Loco Abreu. Um esquema de contra-ataques, típico de outras partidas bem-sucedidas (em especial nas quais o Botafogo atuou como visitante).

Mas que a capital goiana comprovou que só funciona com bons jogadores em campo. Com o bisonho Fahel, o razoável Renato Cajá e o fraquíssimo Lúcio Flávio, o Botafogo se perdia no meio-de-campo. O improviso de Edno na ala deixou o lado esquerdo perdido, pois ele e Renato Cajá se atrapalhavam nas tentativas de ataque, e Maicosuel tinha de se aproximar do meio-de-campo. Quando a bola chegava à área esmeraldina, Loco Abreu já estava bem marcado.

Enquanto os botafoguenses se desdobravam para jogar por seus companheiros ausentes, o Goiás recebia na noite um ótimo presente: a confirmação de que o atacante Felipe vai continuar no clube até o final do Campeonato Brasileiro (depois de tentativa frustrada de transferência para o futebol europeu). Do pé dele veio um bom passe para Rafael Moura. Leandro Guerreiro cortou parcialmente, e Wellington Monteiro conseguiu chutar na sobra. A bola bateu em Fahel e enganou Jefferson. 1 a 0 Goiás, aos 15 minutos.

Com maior número de torcedores no Serra Dourada do que o Goiás (que sofre com o calvário de estar na zona de rebaixamento em um conturbado ano político dentro do clube), o Botafogo aumentou sua pressão, mas continuou caindo nos mesmos vícios do meio-de-campo. Em especial porque as jogadas incisivas de ataque se resumiam a bolas na área para o desvio de cabeça de Loco Abreu. A pressão era mesmo do time esmeraldino. Aos 31 minutos, Wellington Monteiro chutou de fora da área. Jefferson espalmou, a bola bateu na trave e sobrou para Rafael Moura marcar, de cabeça. Goiás 2 a 0.

O Botafogo pagava pelo preço de demorar a se ajeitar no meio-de-campo. Quando conseguiu certa melhora, achou seu gol, em arrancada de Edno que terminou com cruzamento na área para Loco Abreu. O uruguaio desviou, Harlei chegou a tocar na bola, mas ela acabou no fundo da rede. A dois minutos do fim do tempo regulamentar, o time alvinegro diminuía para 2 a 1 e levava motivação para o intervalo.

A motivação se materializava em quatro letras: Caio. O "talismã" de Joel Santana voltou para o intervalo, em lugar de Lúcio Flávio. O treinador trocava a cadência pela velocidade, e corrigia o erro de escalar Edno na ala. O técnico Jorginho armou a equipe defensivamente, apostando em Bernardo e Felipe nos contra-ataques, mas a bola pouco chegava aos dois.

O Botafogo pressionou até a metade da segunda etapa, e viu suas melhores chances (numa cabeçada de Loco Abreu e num chute de Alessandro) pararem nas mãos de Harlei. Mas o cansaço começou a dominar a equipe, e neste momento Joel Santana sentiu ainda mais as ausências de seus jogadores. No lugar dos inoperantes Fahel e Renato Cajá entraram o limitadíssimo Túlio Souza e o menino Bruno Thiago.

Com isto, a partida ficou mais morna, e o Goiás aos poucos foi iniciando jogadas ofensivas. Numa delas, Rafael Moura recebeu na frente de Jefferson, mas teve sua cabeça chutada por Alessandro dentro da área. Pênalti. O próprio Rafael Moura cobrou, e a bola bateu na trave antes de entrar. 3 a 1 Goiás, aos 36. Entregue, o time botafoguense ainda levou mais um gol aos 46 minutos, quando Felipe chutou, Jefferson defendeu, a bola tocou no travessão e sobrou para Bernardo marcar.

Apesar de ainda estar na zona de rebaixamento, o Goiás já dá sinais de recuperação sob o comando de Jorginho. São três resultados positivos consecutivos - além da goleada sobre o Botafogo, teve uma vitória por 3 a 1 sobre o Guarani no Serra Dourada e um empate em 0 a 0 com o Internacional no Beira-Rio - que fizeram o time deixar a última posição do Campeonato Brasileiro. O rótulo de lanterna do campeonato agora é do Grêmio Prudente, que perdeu por 2 a 1 para o Flamengo.

Após a frustração vir em grandes dimensões, resta ao Botafogo comprovar nas próximas partidas que tem elenco suficiente para se manter na zona de classificação da Taça Libertadores da América. Com boa parte de suas ausências motivadas por lesões, o time botafoguense ainda não sabe ao certo quando poderá remontar sua equipe titular novamente. Jogadores como Fahel, Túlio Souza e Lúcio Flávio precisam de uma vez por todas se mostrarem presentes no futebol alvinegro. Senão, até mesmo o credenciamento para a Libertadores de 2011 estará ausente de General Severiano.

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GOIÁS 4x1 BOTAFOGO

Local: Serra Dourada (Goiânia / GO).

Público: 12.480 pagantes.

Renda: R$ 161.797,50.

Árbitro: Francisco Carlos Nascimento (AL) / Assistentes: Carlos Berkenbrock (Fifa/SC) e Pedro Jorge Santos de Araújo (AL).

Gols: Wellington Monteiro aos 15, Rafael Moura aos 31 e Loco Abreu aos 43 minutos do primeiro tempo. Rafael Moura (de pênalti) aos 36 e Bernardo aos 46 minutos do segundo tempo.

Cartões amarelos: Júnior, Marcão (Goiás) e Fahel (Botafogo).

GOIÁS - Harlei, Walmir Lucas, Rafael Tolói e Marcão (Rithelly); Wendel Santos, Amaral (Carlos Alberto), Wellington Monteiro, Bernardo e Júnior (Douglas); Felipe e Rafael Moura. Técnico: Jorginho.

BOTAFOGO - Jefferson, Antônio Carlos, Leandro Guerreiro e Fábio Ferreira; Alessandro, Fahel (Túlio Souza), Lucio Flavio (Caio), Renato Cajá (Bruno Thiago) e Edno; Maicosuel e Loco Abreu. Técnico: Joel Santana.

sábado, 28 de agosto de 2010

Sem máscara



Emerson Leão não é mais o treinador do Goiás. A frase em questão nem é tão inédita no futebol brasileiro, pois basta trocar o nome da equipe para lembrar que Leão recentemente coleciona insucessos, polêmicas e brigas em todas as equipes que dirige. Entretanto, agora o técnico saiu única e exclusivamente pelos maus resultados do esmeraldino, que, depois da derrota por 3 a 0 para o Fluminense no Serra Dourada, chegou ao último lugar na classificação do Campeonato Brasileiro.

A rixa política que assola o Goiás não deixou espaço para Leão mostrar suas irritações e controvérsias com dirigentes, e ficou visível aos olhos dos torcedores suas limitações como técnico. Não bastasse a falta de um padrão de jogo para o time goiano, alguns jogadores de pouca qualidade, como Jonílson, Wellington Monteiro e Everton Santos, foram promovidos a titulares absolutos. Em compensação, boas esperanças de gol, como Bernardo e Romerito, foram deixados de lado, e a equipe se tornou ainda mais inofensiva no ataque.

É bem verdade que as limitações do esmeraldino não disponibilizavam um grande time para Emerson Leão montar - consequências de uma política que esvazia cada vez mais o alviverde goiano. Mas os equívocos do treinador comprometeram ainda mais o desempenho do Goiás, relegado a um time no qual apenas há um resquício de vontade entre seus jogadores.



Da passagem de Leão pelo Serra Dourada, ficam apenas duas lembranças. A do lamentável episódio do Barradão, no qual ao fim do jogo contra o Vitória, o técnico se envolveu numa briga e agrediu um radialista de uma emissora, e o fim do mito de que Emerson Leão é um bom treinador mas atrapalhado por cartolas em todos os clubes que treina.

Talvez este seja um raro momento no qual Emerson Leão é coadjuvante numa crise sem precedente que levou um clube à lanterna do Campeonato Brasileiro. Só que, desta vez, o futebol foi apresentado aos erros de Emerson Leão à beira do campo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Via Crucis goiana



A poucas rodadas do final do primeiro turno, os Brasileirões das Séries A e B continuam a mostrar um equilíbrio típico dos pontos corridos, com vários focos de disputa entre os 20 clubes de cada competição. Entretanto, um centro de futebol traz o ponto de desequilíbrio aos olhos do futebol nacional: o estado de Goiás. Goiás e Atlético Goianiense são os dois últimos da Primeira Divisão, enquanto na Segundona, o Vila Nova encerra a lista de classificação.

2010 era um ano de grandes expectativas para o futebol de Goiás, por ter duas equipes do estado na Série A do Campeonato Brasileiro. Entretanto, o momento promissor das equipes goianas logo cedeu espaço a uma discussão sobre o nível técnico dos times do estado, ainda durante a disputa do Campeonato Goiano.



O Goiás já tinha sido motivo de uma frustração imensa para sua torcida no ano anterior. Após um primeiro turno avassalador, o desempenho da equipe caiu vertiginosamente, a ponto de ficar no limite da parte de baixo da tabela. O momento ficou ainda mais crítico pois a queda de rendimento coincidiu com a chegada de Fernandão, que veio como a grande contratação do esmeraldino para a temporada.

Após terminar o Brasileiro de 2009 com um modesto nono lugar, o Goiás teve um mau começo na temporada de 2010, quando chegou a ficar na última colocação do Campeonato Goiano. O mau desempenho fez o clube ser o primeiro dentre os 20 clubes da Primeira Divisão a demitir um treinador - Hélio dos Anjos saiu para a entrada de Jorginho. Com Jorginho, o alviverde se recuperou a ponto de disputar a semifinal. Mas foi eliminado pelo Atlético, depois de um empate em 0 a 0 e uma derrota por 4 a 2.

Sem Fernandão (que saiu para atuar no São Paulo), o esmeraldino se remendou para o Campeonato Brasileiro do jeito que sabe, aproveitando "sobras" de clubes de maior expressão, neste ano Palmeiras e Atlético Mineiro. Também mudou de treinador, trazendo o vitorioso mas controverso Emerson Leão. E o time, que pedia mudanças, acabou mudando para pior. Até mesmo jogadores promissores, como o zagueiro Rafael Tolói, o meia Amaral e o atacante Romerito caíram de produção, a ponto de a vitória não ser mais garantida nem no Serra Dourada.

O alento veio na Copa Sul-Americana, na qual o time passou para a segunda fase eliminando o Grêmio no Olímpico, depois de um empate em 1 a 1 em Goiânia e uma vitória por 2 a 0 em Porto Alegre. No entanto, a equipe gremista vinha de uma sequência de resultados negativos, passava por uma mudança de comando (Renato Gaúcho estreava como técnico, em substituição a Silas), e um gol legítimo do tricolor gaúcho foi mal anulado quando o Goiás vencia por 1 a 0. Peripécias do futebol que em outros momentos podem não fazer diferença nas partidas. Em especial, se nelas vierem novas atuações ruins dos esmeraldinos.



Mesmo sendo considerada uma equipe de nível técnico inferior em relação aos outros clubes que estão na Série A, não há dúvidas de que a torcida do Atlético Goianiense vive uma imensa frustração com a participação do clube nesta aguardada volta. Em especial porque, nos últimos dois anos, o rubro-negro viu um intenso trabalho ser bem sucedido tanto na Série C em 2008 (quando sagrou-se campeão) quanto na Série B em 2009, quando conseguiu a quarta vaga para a elite do Campeonato Brasileiro.

A euforia dos atleticanos ainda teve bons motivos para prosseguir no ano de 2010. O time foi soberano na disputa do Campeonato Goiano, mostrando um futebol bem superior aos tradicionais rivais Goiás e Vila Nova e, na final, venceu as duas partidas contra o Santa Helena - por 4 a 0 e 3 a 1. Além disto, o Dragão de Goiânia chegou às semifinais da Copa do Brasil, parando apenas no Vitória da Bahia.

No entanto, logo no início do Brasileirão os torcedores perceberam que estes "sucessos" do primeiro semestre eram apenas ilusões. O Campeonato Goiano, que sempre teve sua qualidade discutível, pareceu pior neste ano, com tamanha falta de qualidade até dentre os maiores vencedores do torneio - o Goiás, com 22 títulos, e o Vila Nova, com 15 conquistas.

Antes de ser eliminado pelo Vitória, a única equipe de muito destaque que o Atlético enfrentou na Copa do Brasil foi o Palmeiras. Os outros times que os goianos eliminaram foram Assu (do Rio Grande do Norte), Bahia e Santa Cruz. Nenhum da Primeira Divisão.

E na época em que houve a disputa com os palmeirenses nas quartas-de-final, o alviverde vinha de um péssimo Campeonato Paulista, e passava por uma crise com o técnico Antônio Carlos Zago. A classificação goiana para as semifinais veio numa disputa de pênaltis na segunda partida, realizada no Serra Dourada. Das 10 cobranças das duas equipes, apenas três penalidades foram convertidas. O nivelamento por baixo contribuiu para que o Atlético acreditasse que poderia fazer um Campeonato Brasileiro de maneira convincente, deixando tudo nas costas do bom jogador Robston. Mas, com jogadores de qualidade duvidosa em seu elenco, casos de Pituca, Rodrigo Tiuí e Anaílson, não há treinador capaz de dar uma dignidade de Primeira Divisão ao rubro-negro de Goiânia.



A calamidade goiana não ficou restrita à Série A. Só que a situação do Vila Nova na Segunda Divisão nem é tão inesperada para seus torcedores. Fora da elite desde o longínquo ano de 1985, o clube também perdeu a tradição de ser o único goiano a fazer frente à tradição do Goiás no Campeonato Estadual. Sua conquista mais recente na competição veio em 2005.

Com dificuldades, a equipe se classificou para as semifinais do Campeonato Goiano. E a possibilidade do título se esvaiu de maneira surpreendente, após as duas derrotas para o modestíssimo Santa Helena - por 3 a 1 em pleno Serra Dourada e por 4 a 2 no Estádio Pedro Romualdo Cabral, em Santa Helena de Goiás.

O Campeonato Brasileiro da Série B não vinha com boas expectativas. Além do fraco primeiro semestre, o Tigre de Goiânia fez uma participação muito oscilante no torneio do ano anterior (e muito aquém do esperado para uma equipe que em 2008 chegou perto de se credenciar à Primeira Divisão). Mas a inconstância de 2009 vem cedendo espaço a uma equipe que constantemente faz partidas de fraquíssimo nível técnico.

Nem o apelo de ter no elenco o atacante Roni - revelado no próprio Vila Nova e que tem passagem por clubes de destaque como Fluminense, Cruzeiro, Flamengo e Santos - serve de estímulo para torcida e jogadores. Afinal, o outro atleta com certa "bagagem" no futebol brasileiro é o goleiro Max, que atuou pelo Botafogo. De resto, apenas uma coleção de jogadores itinerantes que não conseguiram se firmar nem em equipes de menor qualidade.

Dos 14 jogos, apenas duas vitórias (sobre Icasa e América de Natal, ambos clubes próximos da zona de rebaixamento) e uma sucessão de derrotas, dentre elas as sonoras goleadas por 3 a 0 para o Santo André e por 4 a 0 diante do Bahia, as duas em pleno Serra Dourada. Mesmo que consiga um resultado positivo na próxima sexta contra o ASA, em Goiânia, o Vila Nova ainda estará a pelo menos cinco pontos de sair da degola para a Terceira Divisão.

Outrora promissor celeiro de jogadores de qualidade que migravam para todos os cantos de futebol do Brasil e do mundo, o estado de Goiás agora assiste a uma verdadeira Via Crucis de seus representantes no futebol brasileiro. Os Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão acaba em dezembro, e o e da Segunda Divisão tem fim em novembro. Mas os calvários de Goiás, Atlético e Vila Nova ainda não parecem ter data marcada para um desfecho.